O Velho no Banco

Domingo, Céu azul, Sol, pássaros e um fim de tarde no Parque. Vejo crianças e sorvete, pipoca e peixinhos, um semáforo e uma fonte. Caminhos tortuosos por entre as árvores, bancos de madeira e casais.

E vejo um velho, sentado num desses tais bancos de madeira. Não tão velho assim, de uns sessenta e sabe-se-lá-quantos anos, mas ainda assim um velho. Um velho no banco.

Volta e meia ele olha as horas no relógio em seu pulso e franze o cenho – parte ansiedade, parte decepção – perdendo logo em seguida o olhar ao longe, em meio a pensamentos desconhecidos.

Que estaria ele fazendo aqui, neste santuário de paz, com esse olhar taciturno? Seu semblante era uma profanação ao belo verde das árvores e arbustos, ao azul límpido do Céu e ao gorjear das majestosas aves.

Que estaria ele pensando que fosse tão aflituoso e, ao mesmo tempo, tão triste? Estaria ele esperando alguém que não decidia se vinha ou deixava de vir?

Talvez seu filho, a quem há muito não via por conta de uma briga familiar anos atrás? Ou, talvez, sua filha, que fugira de casa para ser bailarina num Circo itinerante? Quem sabe, então, estaria ele esperando um antigo e perdido amor de juventude, que agora retornava para dar continuidade à sua interrompida história?

Ou estaria ele recordando-se de acontecimentos vividos anos antes, naquele mesmo horário e naquele mesmo banco?

O velho olha as horas no relógio em seu pulso mais uma vez e, decepcionado, levanta-se do banco e vai embora, levando consigo sua tristeza e minhas indagações.

Deixa Eu

 Deixa eu me enterrar dentro de ti e morrer. Fazer de teu corpo meu mausoléu. Deixa eu cravar unhas e dentes nesta carne pálida, devorar com meus olhos castanhos os teus olhos também castanhos. Deixa eu respirar tua respiração e sangrar teu sangue. Deixa eu sentir a contração de teus músculos esguios apertados contra os meus. Deixa eu apertar teus cabelos por entre meus dedos. Deixa eu recostar meus pés frios e cansados aos teus, mornos. Deixa eu sonhar teus sonhos, proponho, deixa eu viver tua vida. Podes até viver minha vida também, se quiseres.

Só não deixa eu.

Stalker

No princípio, era um elefante. Um elefante na sala de estar, e o melhor a se fazer seria ignorá-lo, certo? “Que elefante?”, vocês me perguntam. Nenhum, oras. Mas chega um momento – e o momento era esse – em que você não pode lidar com as coisas simplesmente ignorando-as. Eu estava sendo perseguido.

Sim, isso mesmo. Havia uma stalker me vigiando onde quer que eu fosse, a uma distância segura. Segura, sim, mas nunca a mais de dez metros de mim. Se eu pegasse um ônibus, lá estaria ela – eu sentado atrás dos bancos que são mais altos, ela no fundo do ônibus. Se eu estivesse no Cinema, assistindo ao novo filme da Sofia Coppola, ela estaria olhando para mim com a mesma intensidade com que eu fitava a película.

E quando eu voltava para casa, ela se prostava à calçada do outro lado da rua, impassível. Permanecia em sua vigília até mesmo nos Domingos chuvosos, o que quase me fez, mais de uma vez, convidá-la para entrar para que não acabasse pegando um resfriado. Por minha culpa, sim, mas também por sua insensatez.

Mas não fiz isso, é claro. Não se convida uma estranha à sua casa, assim, nesses tempos perigosos em que vivemos. Nem mesmo uma estranha tão familiar, que pega os mesmos ônibus  que você, frequenta os mesmos lugares, se molha na mesma chuva. Não. O melhor seria manter distância. Se já não me era permitido ignorá-la, que eu fingisse, então, não me importar com sua saúde.

Enquanto as coisas andavam desse jeito, ainda eram suportáveis. Ela era como uma paisagem familiar, onde quer que eu olhasse. Sempre ali. Sempre. Para um stalker, contudo, apenas observar não seria o bastante. Então ela começou a interferir na minha vida. Esfriava meu café e escondia meus cigarros. Arranhava meus discos e meus filmes, e jogava meus livros por detrás da estante. Transformava em vinagre minhas garrafas de vinho e dava ao Gus, meu gato, meu whisky no lugar da água. Até que já não pude aguentar. Desisto, pensei. Assim não dá mais. Basta. Abri a porta e disse “entra, que tu és de casa”, assim como fiz com a Tristeza – em outra época, em outro lugar.

Quem me perseguia era a Solidão.

Dies Domini

Deitado de bruços no tapete do quarto, Theo olhava através da janela. Franzia o cenho como sempre o fazia, de tal modo que temia que um dia a musculatura de seu rosto não voltasse a seu devido lugar. Com o olhar de quem perde-se em pensamentos, Theo não piscava –  como se assistisse a uma tela de cinema. Era Domingo, dia do Senhor, e como lágrimas copiosas de um pai envergonhado das atitudes de seus inconsequentes filhos, chovia desgraçadamente.

Apesar do estrondoso porém belo barulho da precipitação lá fora, os sons que chegavam aos seus ouvidos eram apenas poluição sonora. O concerto suburbano apresentava nesta noite – e em todas as noites – motores roncando, pneus cantando, buzinas berrando e, próximo dali, algum pastor neopentecostal gritando suas preces a um, aparentemente, surdo deus.

Quão aborrecida seria, pensou Theo, uma existência eterna em que tudo o que se faria seria escutar reclamações e pedidos todo o tempo. Um deus do SAC, atendendo 24 horas por dia 7 dias por semana fieis insatisfeitos, suplicantes e mal agradecidos.

“Senhor, obrigado por mais um dia, mas…” Mas o que, seu filho de uma puta? Será que você não se contenta com a miserável dádiva da vida que Eu lhe dei? Se sim, por que não conquista suas coisas pelo seus próprios méritos, ao invés de tentar me subornar com uma “oferta” que vai apenas ser usada de má-fé (perdoe o trocadilho) para comprar o novo SUV do seu maldito pastor, enquanto você anda de coletivo lotado todo o santo dia?

Isso era o que Theo, se por acaso do Destino, tal como Jim Carrey em “Todo Poderoso”, se tornasse deus de um dia para o outro, diria. Intrinsicamente óbvio é, contudo, que o Senhor não diria uma coisa dessas. Não o Nosso-Todo-Poderoso-Senhor-dos-Exércitos-e-Salvador-de-Todos-Nós. Ele apenas ignoraria as infinitas chamadas e permaneceria calado, já que – nas palavras de Seu povo – quem cala consente. E, como um atendente de SAC qualquer, Ele faz de tudo, menos solucionar os problemas de quem precisa. Por isso, Theo concluiu, ele não ligava para nenhum dos dois.

Viver assim, sentenciou, sendo uma antena sintonizadora para as reclamações alheias, sem se importar o suficiente para solucioná-las, deveria ser uma desgraça. Uma desgraça maior que ser arremessado no lago que arde com fogo e enxofre. Não é de se espantar que Ele não exista, sendo essa desafortunada existência Sua única outra opção.

Ecos do Bosque

Eles existem em todo lugar. Lugares antigos, que não gostam da presença humana, onde resquícios de um outro mundo ainda permanecem. Onde espíritos da natureza vivem há milhares de anos, celebrando o sol, a chuva, o vento, a neve. É melhor manter-se afastado desses lugares, se não quiser correr o risco de nunca mais voltar. Você foi avisado.

Era fim de Outono, o que significava que um tapete castanho-amarelado de folhas cobria o chão. Crack, crack, faziam os pés do garoto, a cada passo que dava,  incerto por causa da densa bruma que rodeava-o e dificultava-lhe a visão. Crack, crack. Seus olhos verdes, brilhantes, tão diferentes do castanho opaco das pessoas que viviam por lá, corriam de um lado para outro, observando a cena pálida e quieta que se seguia. Crack, crack. Apesar do casaco, do cachecol e das luvas, seus pequenos ossos de pré-adolescente congelavam, e ele andava com os braços apertados sobre o peito, na esperança de aquecer-se um pouco mais.

Não se sabe ao certo o motivo do garoto estar naquele bosque, mas especula-se que ele estivesse à procura de sua mãe. Ele era sempre atraído pelo lugar, e caminhar por ali quando não tinha mais o que fazer era um hábito dele, apesar dos avisos que as pessoas mais velhas lhe davam. Não fique andando pelo bosque, menino, eles diziam, é melhor deixá-los em paz. Ou então, se você entrar lá vai acabar desaparecendo, que nem a sua mãe.

Sua mãe havia desaparecido quando ele ainda era muito pequeno para se recordar, e como fora mãe solteira, o garoto era criado pelos avós. Mas estes não gostavam muito dele, pois corria o boato de que sua mãe ficara grávida de algum espírito da floresta, e que o garoto tinha sangue dos Encantados. E de “Encantado” era como ele era chamado pelas outras crianças, que não chegavam perto dele, tampouco o tratavam bem. Por isso, não é de se espantar que ele preferisse caminhar pelo bosque, ao invés de ficar na pequena cidade onde morava.

Ainda não eram cinco horas, mas o ocaso já estava próximo. Com o princípio da chegada da Noite chegavam também os sons dos animais noturnos. Uma raposa atravessa, ansiosa, a trilha por onde o garoto passa, mas ele não se assusta. Estava acostumado aos hábitos dos animais que ali vivem. O som conhecido do pio das corujas confortava-o, de certa forma. O garoto continuava a andar, crack, crack, os braços apertados por sobre o peito, crack, crack, a respiração se condensando no ar frio…

Crack. O garoto estacou, o pé esquerdo ainda levantado por causa do passo que não terminou de dar. Crack. Ele olha pelo ombro, mas não vê nada, e vira-se de novo para continuar a andar. Crack. Ele corre em direção ao som, por entre as árvores, mas nada encontra. Risadas ecoam no ar denso do bosque, e ele olha em todas as direções mas nada vê. Não há nada a se enxergar. Crack. Ele corre de novo, em vão, em direção ao som, e mais risadas podem ser ouvidas ao longe. Crack. Dessa vez ele se vira mais rápido, e consegue vislumbrar um rosto fino de criança desaparecendo no meio das árvores.

O garoto o segue, apesar de apenas distinguir vez ou outra um sorriso largo, cabelos claros, uma risada melodiosa, dedos finos de criança, até que estes desaparecem pela floresta. Enquanto corre se pergunta se é apenas sua imaginação, ou se esse som doce que ele ouve é mesmo de uma flauta. Não uma, várias flautas, sobrepondo-se e intercalando-se em uma melodia selvagem, alegre. Mais alegre do que qualquer coisa que o garoto já sentira.

Seu cachecol fica preso em um galho enquanto corre, e – sem pensar duas vezes – ele o arranca de seu pescoço e continua correndo. Ele começa a ouvir outras risadas, e quando se vira dessa vez, ela o está esperando. O rosto fino, o cabelo loiro na altura dos ombros, desgrenhado de tanto correr, os olhos verdes, brilhantes. Sorri outra vez aquele sorriso largo, para então desaparecer novamente. Ele atira o casaco, encharcado de suor, no chão, e sai em sua busca de novo. Raios de Lua atravessam os galhos e iluminam o caminho tortuoso que o garoto percorre. Ela espera-o outra vez, a mão esquerda estendida, o sorriso travesso em seu rosto. O garoto pendura suas luvas num galho próximo e estende a pequena mão.

Ela o guia até uma clareira, de passos firmes, graciosos. Ele vê uma fogueira, vê outros como ela, de olhos verdes e rostos angulosos, e eles dançam – de sorrisos largos – ao som de flautas e harpas e vozes translúcidas como a água. Ela o guia pela mão e o leva até lá, o garoto com o sangue dos Encantados, e ele dança e ri e festeja e chora de alegria até que a Noite dê-se por satisfeita e retire-se para a chegada da  Aurora.

Na pequena cidade, o garoto nunca mais foi visto, mas tanto melhor para ele. Estava em casa.