A visita de Jesus a seu servo Reuel, amigo de Seu Pai

O Teatro de Oklahoma

Certa noite, decide Jesus visitar em sonho Reuel, seu fiel servo e amigo de Seu Pai. No sonho, passava da hora de cear, Jesus e seu servo conversavam enquanto bebiam vinho, quando Reuel esvazia seu sexto cálice. E eis que, ao encher o cálice de seu servo pela sétima vez com um jarro de cerâmica que estava sempre meio cheio, nunca meio vazio, disse-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade te digo que sou tão intolerante quanto Meu Pai. Se preguei nessa Terra o amor ao próximo, foi por saber que fariam justamente o contrário do que eu dissesse. Dois dias se passaram desde que ascendi aos Céus, e olha o que fazem os servos meus. Em m’Eu nome entram em guerras das quais não querem sair, só pelo prazer de matar e dominar. Em m’Eu nome, lincham ladrões, enquanto minhas palavras foram “atire a primeira pedra aquele que limpo de…

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meialuz

O Teatro de Oklahoma

não vira de costas não, meu amor, eu quero ficar olhando você. não vira de costas não, eu quero dar beijos na maçã do seu rosto de vinte em vinte segundos enquanto faço carinho no seu cabelo. não vira de costas não, eu quero dizer que amo você só pra ver você sorrindo em resposta pra depois dizer que me ama também e eu sorrir desse jeito torto de quem tenta segurar mas não consegue, eu quero abraçar você e me desligar de tudo além do seu cheiro, e que você me aperte, aperte tanto que chegue a doer uma dor dessas dores boas, doces, que eu sempre sonhei em ser capaz de fazer alguém sentir. eu quero foder você, meu deus como eu quero foder você, gosto tanto de você com essa calcinha de renda, e olha que eu nunca achei que calcinhas de renda fossem nada demais mas…

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Metalinguagem.

Páginas em branco, vazias como eu. Folheio, alheio, enquanto tento pensar. “O que escrever?” eu me pergunto. Metafísica? Metonímia? Metástase? Metalinguagem? Sim e não. Escrever sobre a vida, e escrever sobre a morte. Sobre a luz e sob as trevas. Escrever sobre tudo, e – sobretudo – sobre nada. Escrever sobre o riso, sobre o choro, e sobre chorar de tanto rir. A florescência da Primavera, e a cadência do Outono. O calor do Verão e a gelidez do Inverno. Escrever sobre alguém, e sobre ninguém em especial. Apenas escrever. Escrever sobre escrever.

Estranha

Levanto. Vou embora, digo.  Tu, porém, não dizes palavra alguma, apenas levantas o olhar para mim, o cenho franzido. Fica, teus olhos parecem dizer. Quando me olhas assim, da beirada da cama desse quarto de hotel barato, as mãos entre as pernas, não há como não desfazer-me à tua vontade. Fico, cedo. Engraçado como os lençóis que te envolvem parecem feitos para vestir-te.

De pé, ao lado da cama, tudo o que vejo é uma Estranha. Outras noites como essa vieram e foram-se; para mim, contudo, é como se tivéssemos acabado de nos conhecer. Mas como pode uma Estranha parecer-me tão familiar? Talvez seja eu também um Estranho? Quem sabe, então, tenhamos em nossas estranhezas algum ponto comum?

Não preciso de ninguém, nem tu o precisas – perdoa-me se isso parece tão certo. Tudo o que me arrisco a pedir é que não te vás ao fim da noite, quando finalmente consigo cair no sono. Fazes isso para permanecer uma Estranha, eu sei, mas é justamente contra isso que estou tentando lutar. Contra toda essa intocabilidade com que revestes a ti mesma.

Deito-me outra vez, o cansaço começando a fazer-se presente. Minha vigília não pode ser eterna, então peço outra vez: fica por esta noite – ao menos por esta noite – e deixa eu descobrir como teu cabelo fica quando banhado pela Aurora que escapa por entre a persiana. É só por esta noite, juro. Depois podes ir-te embora, como sempre o fazes, e não voltar antes de uma volta de Lua.

Para que permaneças uma Estranha para mim.