A Noite mais longa

Era a Noite mais longa do ano quando você chegou. Era sempre a Noite mais longa do ano quando você chegava, trazendo o Solstício junto de si. Nessa Noite em especial, a Lua fazia-se quase Cheia e eu ainda dormia quando você silenciosamente abriu a porta, limpou no tapete as botas de viagem, pendurou num gancho à parede o casaco e caminhou de passos macios até a sala.

Empurrou-me pelas costas assim, feito criança, com as duas mãos espalmadas, a fim de fazer-me ceder espaço no nosso sofá, o que acabou por me fazer acordar. Boa Noite, eu disse sonolento, uma mão coçando o olho esquerdo, a outra escondendo a boca que terminava um bocejo. Alguém deveria estar acordado, você diz, fingindo-se de séria. Esperando por mim.

Sempre durmo a essa hora, admito, vencido, quem sabe desse modo a Noite chega mais depressa. Momentos como esse exigem sinceridade. Então você sorri esse sorriso que eu não via havia um ano, e deita-se ao meu lado espalhando ao meu redor seu perfume de mirtilo, sua mão esquerda segurando a minha. Sua pele é fria ao meu tato por causa da longa viagem que fez, ainda assim é um frio que chega a queimar minha pele.

Com seu pescoço recostado ao meu ombro, consigo sentir seu sangue pulsando lentamente, assim como sua respiração fazendo cócegas em mim. Ficamos assim, deitados em silêncio, durante todas as primeiras horas da Noite, apenas acostumando nossos corpos à presença um do outro. Presença que ansiamos por todos os outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano, mas que só nos é dada numa única Noite, o Solstício de Inverno.

Mais tarde, depois de nos amarmos infinitas vezes e de eu fazê-la morrer de rir ao dizer eu amo você, assim, todo sério, conversaremos sobre todas as coisas que precisamos falar um com o outro durante nossas últimas horas juntos. Mas quando a primeira luz da Aurora estiver prestes a chegar, fingirei ter caído no sono outra vez, e pedirei desculpas silenciosas por não ter coragem de vê-la partir de novo, mesmo depois de todos esses anos.

E com a sua partida, fica comigo a certeza de que a Noite mais longa foi também a mais feliz do ano, porque você esteve aqui, comigo. Outra vez.

Stalker

No princípio, era um elefante. Um elefante na sala de estar, e o melhor a se fazer seria ignorá-lo, certo? “Que elefante?”, vocês me perguntam. Nenhum, oras. Mas chega um momento – e o momento era esse – em que você não pode lidar com as coisas simplesmente ignorando-as. Eu estava sendo perseguido.

Sim, isso mesmo. Havia uma stalker me vigiando onde quer que eu fosse, a uma distância segura. Segura, sim, mas nunca a mais de dez metros de mim. Se eu pegasse um ônibus, lá estaria ela – eu sentado atrás dos bancos que são mais altos, ela no fundo do ônibus. Se eu estivesse no Cinema, assistindo ao novo filme da Sofia Coppola, ela estaria olhando para mim com a mesma intensidade com que eu fitava a película.

E quando eu voltava para casa, ela se prostava à calçada do outro lado da rua, impassível. Permanecia em sua vigília até mesmo nos Domingos chuvosos, o que quase me fez, mais de uma vez, convidá-la para entrar para que não acabasse pegando um resfriado. Por minha culpa, sim, mas também por sua insensatez.

Mas não fiz isso, é claro. Não se convida uma estranha à sua casa, assim, nesses tempos perigosos em que vivemos. Nem mesmo uma estranha tão familiar, que pega os mesmos ônibus  que você, frequenta os mesmos lugares, se molha na mesma chuva. Não. O melhor seria manter distância. Se já não me era permitido ignorá-la, que eu fingisse, então, não me importar com sua saúde.

Enquanto as coisas andavam desse jeito, ainda eram suportáveis. Ela era como uma paisagem familiar, onde quer que eu olhasse. Sempre ali. Sempre. Para um stalker, contudo, apenas observar não seria o bastante. Então ela começou a interferir na minha vida. Esfriava meu café e escondia meus cigarros. Arranhava meus discos e meus filmes, e jogava meus livros por detrás da estante. Transformava em vinagre minhas garrafas de vinho e dava ao Gus, meu gato, meu whisky no lugar da água. Até que já não pude aguentar. Desisto, pensei. Assim não dá mais. Basta. Abri a porta e disse “entra, que tu és de casa”, assim como fiz com a Tristeza – em outra época, em outro lugar.

Quem me perseguia era a Solidão.

Dies Domini

Deitado de bruços no tapete do quarto, Theo olhava através da janela. Franzia o cenho como sempre o fazia, de tal modo que temia que um dia a musculatura de seu rosto não voltasse a seu devido lugar. Com o olhar de quem perde-se em pensamentos, Theo não piscava –  como se assistisse a uma tela de cinema. Era Domingo, dia do Senhor, e como lágrimas copiosas de um pai envergonhado das atitudes de seus inconsequentes filhos, chovia desgraçadamente.

Apesar do estrondoso porém belo barulho da precipitação lá fora, os sons que chegavam aos seus ouvidos eram apenas poluição sonora. O concerto suburbano apresentava nesta noite – e em todas as noites – motores roncando, pneus cantando, buzinas berrando e, próximo dali, algum pastor neopentecostal gritando suas preces a um, aparentemente, surdo deus.

Quão aborrecida seria, pensou Theo, uma existência eterna em que tudo o que se faria seria escutar reclamações e pedidos todo o tempo. Um deus do SAC, atendendo 24 horas por dia 7 dias por semana fieis insatisfeitos, suplicantes e mal agradecidos.

“Senhor, obrigado por mais um dia, mas…” Mas o que, seu filho de uma puta? Será que você não se contenta com a miserável dádiva da vida que Eu lhe dei? Se sim, por que não conquista suas coisas pelo seus próprios méritos, ao invés de tentar me subornar com uma “oferta” que vai apenas ser usada de má-fé (perdoe o trocadilho) para comprar o novo SUV do seu maldito pastor, enquanto você anda de coletivo lotado todo o santo dia?

Isso era o que Theo, se por acaso do Destino, tal como Jim Carrey em “Todo Poderoso”, se tornasse deus de um dia para o outro, diria. Intrinsicamente óbvio é, contudo, que o Senhor não diria uma coisa dessas. Não o Nosso-Todo-Poderoso-Senhor-dos-Exércitos-e-Salvador-de-Todos-Nós. Ele apenas ignoraria as infinitas chamadas e permaneceria calado, já que – nas palavras de Seu povo – quem cala consente. E, como um atendente de SAC qualquer, Ele faz de tudo, menos solucionar os problemas de quem precisa. Por isso, Theo concluiu, ele não ligava para nenhum dos dois.

Viver assim, sentenciou, sendo uma antena sintonizadora para as reclamações alheias, sem se importar o suficiente para solucioná-las, deveria ser uma desgraça. Uma desgraça maior que ser arremessado no lago que arde com fogo e enxofre. Não é de se espantar que Ele não exista, sendo essa desafortunada existência Sua única outra opção.

Ecos do Bosque

Eles existem em todo lugar. Lugares antigos, que não gostam da presença humana, onde resquícios de um outro mundo ainda permanecem. Onde espíritos da natureza vivem há milhares de anos, celebrando o sol, a chuva, o vento, a neve. É melhor manter-se afastado desses lugares, se não quiser correr o risco de nunca mais voltar. Você foi avisado.

Era fim de Outono, o que significava que um tapete castanho-amarelado de folhas cobria o chão. Crack, crack, faziam os pés do garoto, a cada passo que dava,  incerto por causa da densa bruma que rodeava-o e dificultava-lhe a visão. Crack, crack. Seus olhos verdes, brilhantes, tão diferentes do castanho opaco das pessoas que viviam por lá, corriam de um lado para outro, observando a cena pálida e quieta que se seguia. Crack, crack. Apesar do casaco, do cachecol e das luvas, seus pequenos ossos de pré-adolescente congelavam, e ele andava com os braços apertados sobre o peito, na esperança de aquecer-se um pouco mais.

Não se sabe ao certo o motivo do garoto estar naquele bosque, mas especula-se que ele estivesse à procura de sua mãe. Ele era sempre atraído pelo lugar, e caminhar por ali quando não tinha mais o que fazer era um hábito dele, apesar dos avisos que as pessoas mais velhas lhe davam. Não fique andando pelo bosque, menino, eles diziam, é melhor deixá-los em paz. Ou então, se você entrar lá vai acabar desaparecendo, que nem a sua mãe.

Sua mãe havia desaparecido quando ele ainda era muito pequeno para se recordar, e como fora mãe solteira, o garoto era criado pelos avós. Mas estes não gostavam muito dele, pois corria o boato de que sua mãe ficara grávida de algum espírito da floresta, e que o garoto tinha sangue dos Encantados. E de “Encantado” era como ele era chamado pelas outras crianças, que não chegavam perto dele, tampouco o tratavam bem. Por isso, não é de se espantar que ele preferisse caminhar pelo bosque, ao invés de ficar na pequena cidade onde morava.

Ainda não eram cinco horas, mas o ocaso já estava próximo. Com o princípio da chegada da Noite chegavam também os sons dos animais noturnos. Uma raposa atravessa, ansiosa, a trilha por onde o garoto passa, mas ele não se assusta. Estava acostumado aos hábitos dos animais que ali vivem. O som conhecido do pio das corujas confortava-o, de certa forma. O garoto continuava a andar, crack, crack, os braços apertados por sobre o peito, crack, crack, a respiração se condensando no ar frio…

Crack. O garoto estacou, o pé esquerdo ainda levantado por causa do passo que não terminou de dar. Crack. Ele olha pelo ombro, mas não vê nada, e vira-se de novo para continuar a andar. Crack. Ele corre em direção ao som, por entre as árvores, mas nada encontra. Risadas ecoam no ar denso do bosque, e ele olha em todas as direções mas nada vê. Não há nada a se enxergar. Crack. Ele corre de novo, em vão, em direção ao som, e mais risadas podem ser ouvidas ao longe. Crack. Dessa vez ele se vira mais rápido, e consegue vislumbrar um rosto fino de criança desaparecendo no meio das árvores.

O garoto o segue, apesar de apenas distinguir vez ou outra um sorriso largo, cabelos claros, uma risada melodiosa, dedos finos de criança, até que estes desaparecem pela floresta. Enquanto corre se pergunta se é apenas sua imaginação, ou se esse som doce que ele ouve é mesmo de uma flauta. Não uma, várias flautas, sobrepondo-se e intercalando-se em uma melodia selvagem, alegre. Mais alegre do que qualquer coisa que o garoto já sentira.

Seu cachecol fica preso em um galho enquanto corre, e – sem pensar duas vezes – ele o arranca de seu pescoço e continua correndo. Ele começa a ouvir outras risadas, e quando se vira dessa vez, ela o está esperando. O rosto fino, o cabelo loiro na altura dos ombros, desgrenhado de tanto correr, os olhos verdes, brilhantes. Sorri outra vez aquele sorriso largo, para então desaparecer novamente. Ele atira o casaco, encharcado de suor, no chão, e sai em sua busca de novo. Raios de Lua atravessam os galhos e iluminam o caminho tortuoso que o garoto percorre. Ela espera-o outra vez, a mão esquerda estendida, o sorriso travesso em seu rosto. O garoto pendura suas luvas num galho próximo e estende a pequena mão.

Ela o guia até uma clareira, de passos firmes, graciosos. Ele vê uma fogueira, vê outros como ela, de olhos verdes e rostos angulosos, e eles dançam – de sorrisos largos – ao som de flautas e harpas e vozes translúcidas como a água. Ela o guia pela mão e o leva até lá, o garoto com o sangue dos Encantados, e ele dança e ri e festeja e chora de alegria até que a Noite dê-se por satisfeita e retire-se para a chegada da  Aurora.

Na pequena cidade, o garoto nunca mais foi visto, mas tanto melhor para ele. Estava em casa.

Algo

Garoava na Terra da Garoa. E fazia frio. Talvez não um frio de gelar os ossos, mas Theo era o que as pessoas chamavam de friento. Engraçado como as pessoas tinham nome para tudo.

Desceu do ônibus e correu – uma mão no bolso do casaco, a outra segurando a bolsa, à tiracolo. Só parou de correr quando chegou à uma marquise, depois de atravessar a rua em meio ao trânsito. Eram cinco e meia da tarde, mas o ocaso já estava próximo, e as luzes da cidade começavam a se acender.

Nos fones de ouvido do celular, Tiê dizia que deveria estar completamente avoada. Theo caminhava, de passos rápidos, em direção à República em que morava. Era junho, e o semestre de sua faculdade havia acabado hoje. Em duas semanas estaria fazendo dezenove anos, e – para Stephen King, de quem Theo era fã – havia um certo misticismo acerca deste número. Ele também acreditava nisso, ou acreditaria, se acreditasse em alguma coisa.

Atravessou outra rua, chegando à rua onde morava, pensando em quantas pessoas, assim como ele, vinham para São Paulo na esperança de encontrar o que procuravam. A maior parte das pessoas, ele imaginava, só queria um bom emprego, um plano de saúde, uma casa para abrigar a família. Theo, contudo, não sabia o que procurava.

Estava na cidade havia um ano, e as coisas estavam voltando à mesmice de outrora. Assim como antes, em São Paulo ele tinha amigos, tinha seus livros e tinha seu caderno. Frequentava shows e ia ao cinema quando podia (e o dinheiro dava). E havia a faculdade, que Theo adorava. Mas faltava-lhe algo, algo que desse sentido à sua vida, que o fizesse ansiar pelo amanhã. Algo que ele ainda não possuía. O que era esse algo, entretanto, ele desconhecia.

Abriu a porta de casa ainda pensando em algo.