Onde o Oceano encontra o Céu

Não me olhes assim.

Nós nos encontraremos de novo, onde o Oceano encontra o Céu, onde estrelas de diamante líquido permeiam a nossa volta, onde pequenas ondas lambem nossos pés como labaredas salgadas.

Não me olhes assim com esses teus olhos verdes suplicantes como se essa fosse a primeira e última vez.

Nós nos encontraremos de novo, onde tua tez cintila tão prateada quanto Selene, Crescente no firmamento, onde a bruma oculta esse teu sorriso lacônico e te torna ainda mais indecifrável.

Não me olhes assim, senão acabo cedendo e ficando um pouco mais, mas, quando eu for, não te esqueças: nós nos encontraremos de novo.

Onde o Oceano encontra o Céu.

Dessas dores boas, doces

Me segura pelos ombros ou pelas mãos e aperta, aperta tanto que chega a doer uma dor dessas dores boas, doces e diz eu amo você. Diz assim, inflexível, robótico, a voz suave e baixa, os nossos olhos se tocando. Eu amo você, todo sério, tão sério que eu me desgraço a rir, gargalhando alto, sonoramente que nem uma boba alegre. O que foi?, você pergunta, a preocupação impressa em cada uma dessas linhas no seu rosto que eu conheço como nenhuma outra pessoa na face arredondada de pólos achatados dessa Terra. Não é nada não, eu tento dizer, sem ar. Não é nada não, é só que você é sempre tão cheio de risos e brilhos nos olhos e eu aquela que diz para-com-isso-seu-sujeitinho-miserável-que-o-assunto-é-serio enquanto pontuo cada palavra com um tapa em seu braço que não posso deixar de rir, desembestada assim, quando o sério da vez é você. Então você sorri esse seu sorriso torto, à meia-luz, fitando as mãos envergonhado da seriedade de outrora e eu me desmancho em você, me desmancho e – para eu não escorrer – me agarro em seus braços esguios e você me aperta, aperta tanto que chega a doer outra vez uma dor dessas dores boas, doces, que só você foi capaz de me fazer sentir.

Deixa Eu

 Deixa eu me enterrar dentro de ti e morrer. Fazer de teu corpo meu mausoléu. Deixa eu cravar unhas e dentes nesta carne pálida, devorar com meus olhos castanhos os teus olhos também castanhos. Deixa eu respirar tua respiração e sangrar teu sangue. Deixa eu sentir a contração de teus músculos esguios apertados contra os meus. Deixa eu apertar teus cabelos por entre meus dedos. Deixa eu recostar meus pés frios e cansados aos teus, mornos. Deixa eu sonhar teus sonhos, proponho, deixa eu viver tua vida. Podes até viver minha vida também, se quiseres.

Só não deixa eu.

Ritmo.

Vinho nas taças, vinho nas roupas, vinho no chão. Rosas na pele e fogo nos olhos. A escuridão adensava o ar tornando impossível para um voyeur distinguir quem era quem. Só havia os odores, os sons, o tato. Um misto de perfumes diferentes suor e sexo. Corações ritmados respirações ritmadas corpos ritmados.

Mãos mãos beijos beijos pernas pernas mordidas mordidas beijos beijos ritmo ritmo ritmo ritmo ritmo ritmo sussurros sussurros respirações respirações  gemidos gemidos êxtase êxtase respirações respirações ritmo ritmo ritmo ritmo ritmo ritmo.

E depois, Paz. Corpos tombados doloridos risos abraços e mais beijos. Agora dormem, respirações lentas e profundas e ritmadas. Abraçados um ao outro, Morpheus embala-os. Que deixem para a Aurora os vergões, os arroxeados, as dores. Por ora o que importa é o Silêncio. O Érebo. Selene, Crescente no céu. Que deixem para a Aurora as despedidas, a tristeza, as lágrimas. Por ora, celebrem a Noite e todos os prazeres que Ela oferece.

O que tinha de ser feito.

O homem é o ser mais cruel que existe, dissera seu pai certa vez. Ele jamais esqueceu-se disso, talvez a coisa mais significante que seu pai já dissera. E, mais uma vez ele ouviu esse trecho de memória vindo à sua cabeça. Sim, o homem é cruel, pensou uma parte de si, em resposta. Ele já havia sentido essa sensação antes, essa frieza vinda de outras pessoas. Mas agora ele pôde experimentá-la vinda de si próprio. Você não é diferente, o outro lado acrescentou. E sabia disso.

O mais estranho de tudo, é que ele havia gostado daquilo. Havia gostado de sentir que a vida de outra pessoa dependia dele, exclusivamente dele. Na escuridão em que se encontravam, não pôde ver seus olhos, mas pôde senti-los. Pôde sentir a estranha resignação que neles havia, sabendo o que aconteceria logo em seguida. Também pôde sentir uma pequena esperança, como uma centelha à procura de algo ao qual apegar-se e incendiar-se numa esperança maior.

Entretanto, se – por um momento – os olhos dela encontrassem os seus, saberia que não aconteceria de outro modo. Seus olhos não se encontraram, contudo, e ela morreu como viveu, de olhos fixos ao chão. Apenas um tiro e nada mais restava do que havia sido ela, ou do que representara para ele. Abaixou-se para fechar os olhos dela. Os mesmos olhos que antes haviam-no feito sorrir, que ele adorara olhar para eles e vê-los se desviando, logo em seguida.

Recordar-se disso não fez com que se sentisse pior. Tampouco fez com que se sentisse melhor, pois não era possível que estivesse bem naquele momento. De algum modo, ele já sabia o que teria de acontecer. Fez o que tinha de ser feito. Já tiraram tudo de mim, pensou ele, não deixaria que tirassem-na de mim também. Então ele mesmo tirara-a de si. Fiz o que tinha de ser feito.

(Junho de 2011)