Onde o Oceano encontra o Céu

Não me olhes assim.

Nós nos encontraremos de novo, onde o Oceano encontra o Céu, onde estrelas de diamante líquido permeiam a nossa volta, onde pequenas ondas lambem nossos pés como labaredas salgadas.

Não me olhes assim com esses teus olhos verdes suplicantes como se essa fosse a primeira e última vez.

Nós nos encontraremos de novo, onde tua tez cintila tão prateada quanto Selene, Crescente no firmamento, onde a bruma oculta esse teu sorriso lacônico e te torna ainda mais indecifrável.

Não me olhes assim, senão acabo cedendo e ficando um pouco mais, mas, quando eu for, não te esqueças: nós nos encontraremos de novo.

Onde o Oceano encontra o Céu.

A Noite mais longa

Era a Noite mais longa do ano quando você chegou. Era sempre a Noite mais longa do ano quando você chegava, trazendo o Solstício junto de si. Nessa Noite em especial, a Lua fazia-se quase Cheia e eu ainda dormia quando você silenciosamente abriu a porta, limpou no tapete as botas de viagem, pendurou num gancho à parede o casaco e caminhou de passos macios até a sala.

Empurrou-me pelas costas assim, feito criança, com as duas mãos espalmadas, a fim de fazer-me ceder espaço no nosso sofá, o que acabou por me fazer acordar. Boa Noite, eu disse sonolento, uma mão coçando o olho esquerdo, a outra escondendo a boca que terminava um bocejo. Alguém deveria estar acordado, você diz, fingindo-se de séria. Esperando por mim.

Sempre durmo a essa hora, admito, vencido, quem sabe desse modo a Noite chega mais depressa. Momentos como esse exigem sinceridade. Então você sorri esse sorriso que eu não via havia um ano, e deita-se ao meu lado espalhando ao meu redor seu perfume de mirtilo, sua mão esquerda segurando a minha. Sua pele é fria ao meu tato por causa da longa viagem que fez, ainda assim é um frio que chega a queimar minha pele.

Com seu pescoço recostado ao meu ombro, consigo sentir seu sangue pulsando lentamente, assim como sua respiração fazendo cócegas em mim. Ficamos assim, deitados em silêncio, durante todas as primeiras horas da Noite, apenas acostumando nossos corpos à presença um do outro. Presença que ansiamos por todos os outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano, mas que só nos é dada numa única Noite, o Solstício de Inverno.

Mais tarde, depois de nos amarmos infinitas vezes e de eu fazê-la morrer de rir ao dizer eu amo você, assim, todo sério, conversaremos sobre todas as coisas que precisamos falar um com o outro durante nossas últimas horas juntos. Mas quando a primeira luz da Aurora estiver prestes a chegar, fingirei ter caído no sono outra vez, e pedirei desculpas silenciosas por não ter coragem de vê-la partir de novo, mesmo depois de todos esses anos.

E com a sua partida, fica comigo a certeza de que a Noite mais longa foi também a mais feliz do ano, porque você esteve aqui, comigo. Outra vez.