Dessas dores boas, doces

Me segura pelos ombros ou pelas mãos e aperta, aperta tanto que chega a doer uma dor dessas dores boas, doces e diz eu amo você. Diz assim, inflexível, robótico, a voz suave e baixa, os nossos olhos se tocando. Eu amo você, todo sério, tão sério que eu me desgraço a rir, gargalhando alto, sonoramente que nem uma boba alegre. O que foi?, você pergunta, a preocupação impressa em cada uma dessas linhas no seu rosto que eu conheço como nenhuma outra pessoa na face arredondada de pólos achatados dessa Terra. Não é nada não, eu tento dizer, sem ar. Não é nada não, é só que você é sempre tão cheio de risos e brilhos nos olhos e eu aquela que diz para-com-isso-seu-sujeitinho-miserável-que-o-assunto-é-serio enquanto pontuo cada palavra com um tapa em seu braço que não posso deixar de rir, desembestada assim, quando o sério da vez é você. Então você sorri esse seu sorriso torto, à meia-luz, fitando as mãos envergonhado da seriedade de outrora e eu me desmancho em você, me desmancho e – para eu não escorrer – me agarro em seus braços esguios e você me aperta, aperta tanto que chega a doer outra vez uma dor dessas dores boas, doces, que só você foi capaz de me fazer sentir.