Stalker

No princípio, era um elefante. Um elefante na sala de estar, e o melhor a se fazer seria ignorá-lo, certo? “Que elefante?”, vocês me perguntam. Nenhum, oras. Mas chega um momento – e o momento era esse – em que você não pode lidar com as coisas simplesmente ignorando-as. Eu estava sendo perseguido.

Sim, isso mesmo. Havia uma stalker me vigiando onde quer que eu fosse, a uma distância segura. Segura, sim, mas nunca a mais de dez metros de mim. Se eu pegasse um ônibus, lá estaria ela – eu sentado atrás dos bancos que são mais altos, ela no fundo do ônibus. Se eu estivesse no Cinema, assistindo ao novo filme da Sofia Coppola, ela estaria olhando para mim com a mesma intensidade com que eu fitava a película.

E quando eu voltava para casa, ela se prostava à calçada do outro lado da rua, impassível. Permanecia em sua vigília até mesmo nos Domingos chuvosos, o que quase me fez, mais de uma vez, convidá-la para entrar para que não acabasse pegando um resfriado. Por minha culpa, sim, mas também por sua insensatez.

Mas não fiz isso, é claro. Não se convida uma estranha à sua casa, assim, nesses tempos perigosos em que vivemos. Nem mesmo uma estranha tão familiar, que pega os mesmos ônibus  que você, frequenta os mesmos lugares, se molha na mesma chuva. Não. O melhor seria manter distância. Se já não me era permitido ignorá-la, que eu fingisse, então, não me importar com sua saúde.

Enquanto as coisas andavam desse jeito, ainda eram suportáveis. Ela era como uma paisagem familiar, onde quer que eu olhasse. Sempre ali. Sempre. Para um stalker, contudo, apenas observar não seria o bastante. Então ela começou a interferir na minha vida. Esfriava meu café e escondia meus cigarros. Arranhava meus discos e meus filmes, e jogava meus livros por detrás da estante. Transformava em vinagre minhas garrafas de vinho e dava ao Gus, meu gato, meu whisky no lugar da água. Até que já não pude aguentar. Desisto, pensei. Assim não dá mais. Basta. Abri a porta e disse “entra, que tu és de casa”, assim como fiz com a Tristeza – em outra época, em outro lugar.

Quem me perseguia era a Solidão.

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5 pensamentos sobre “Stalker

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