Ecos do Bosque

Eles existem em todo lugar. Lugares antigos, que não gostam da presença humana, onde resquícios de um outro mundo ainda permanecem. Onde espíritos da natureza vivem há milhares de anos, celebrando o sol, a chuva, o vento, a neve. É melhor manter-se afastado desses lugares, se não quiser correr o risco de nunca mais voltar. Você foi avisado.

Era fim de Outono, o que significava que um tapete castanho-amarelado de folhas cobria o chão. Crack, crack, faziam os pés do garoto, a cada passo que dava,  incerto por causa da densa bruma que rodeava-o e dificultava-lhe a visão. Crack, crack. Seus olhos verdes, brilhantes, tão diferentes do castanho opaco das pessoas que viviam por lá, corriam de um lado para outro, observando a cena pálida e quieta que se seguia. Crack, crack. Apesar do casaco, do cachecol e das luvas, seus pequenos ossos de pré-adolescente congelavam, e ele andava com os braços apertados sobre o peito, na esperança de aquecer-se um pouco mais.

Não se sabe ao certo o motivo do garoto estar naquele bosque, mas especula-se que ele estivesse à procura de sua mãe. Ele era sempre atraído pelo lugar, e caminhar por ali quando não tinha mais o que fazer era um hábito dele, apesar dos avisos que as pessoas mais velhas lhe davam. Não fique andando pelo bosque, menino, eles diziam, é melhor deixá-los em paz. Ou então, se você entrar lá vai acabar desaparecendo, que nem a sua mãe.

Sua mãe havia desaparecido quando ele ainda era muito pequeno para se recordar, e como fora mãe solteira, o garoto era criado pelos avós. Mas estes não gostavam muito dele, pois corria o boato de que sua mãe ficara grávida de algum espírito da floresta, e que o garoto tinha sangue dos Encantados. E de “Encantado” era como ele era chamado pelas outras crianças, que não chegavam perto dele, tampouco o tratavam bem. Por isso, não é de se espantar que ele preferisse caminhar pelo bosque, ao invés de ficar na pequena cidade onde morava.

Ainda não eram cinco horas, mas o ocaso já estava próximo. Com o princípio da chegada da Noite chegavam também os sons dos animais noturnos. Uma raposa atravessa, ansiosa, a trilha por onde o garoto passa, mas ele não se assusta. Estava acostumado aos hábitos dos animais que ali vivem. O som conhecido do pio das corujas confortava-o, de certa forma. O garoto continuava a andar, crack, crack, os braços apertados por sobre o peito, crack, crack, a respiração se condensando no ar frio…

Crack. O garoto estacou, o pé esquerdo ainda levantado por causa do passo que não terminou de dar. Crack. Ele olha pelo ombro, mas não vê nada, e vira-se de novo para continuar a andar. Crack. Ele corre em direção ao som, por entre as árvores, mas nada encontra. Risadas ecoam no ar denso do bosque, e ele olha em todas as direções mas nada vê. Não há nada a se enxergar. Crack. Ele corre de novo, em vão, em direção ao som, e mais risadas podem ser ouvidas ao longe. Crack. Dessa vez ele se vira mais rápido, e consegue vislumbrar um rosto fino de criança desaparecendo no meio das árvores.

O garoto o segue, apesar de apenas distinguir vez ou outra um sorriso largo, cabelos claros, uma risada melodiosa, dedos finos de criança, até que estes desaparecem pela floresta. Enquanto corre se pergunta se é apenas sua imaginação, ou se esse som doce que ele ouve é mesmo de uma flauta. Não uma, várias flautas, sobrepondo-se e intercalando-se em uma melodia selvagem, alegre. Mais alegre do que qualquer coisa que o garoto já sentira.

Seu cachecol fica preso em um galho enquanto corre, e – sem pensar duas vezes – ele o arranca de seu pescoço e continua correndo. Ele começa a ouvir outras risadas, e quando se vira dessa vez, ela o está esperando. O rosto fino, o cabelo loiro na altura dos ombros, desgrenhado de tanto correr, os olhos verdes, brilhantes. Sorri outra vez aquele sorriso largo, para então desaparecer novamente. Ele atira o casaco, encharcado de suor, no chão, e sai em sua busca de novo. Raios de Lua atravessam os galhos e iluminam o caminho tortuoso que o garoto percorre. Ela espera-o outra vez, a mão esquerda estendida, o sorriso travesso em seu rosto. O garoto pendura suas luvas num galho próximo e estende a pequena mão.

Ela o guia até uma clareira, de passos firmes, graciosos. Ele vê uma fogueira, vê outros como ela, de olhos verdes e rostos angulosos, e eles dançam – de sorrisos largos – ao som de flautas e harpas e vozes translúcidas como a água. Ela o guia pela mão e o leva até lá, o garoto com o sangue dos Encantados, e ele dança e ri e festeja e chora de alegria até que a Noite dê-se por satisfeita e retire-se para a chegada da  Aurora.

Na pequena cidade, o garoto nunca mais foi visto, mas tanto melhor para ele. Estava em casa.