Algo

Garoava na Terra da Garoa. E fazia frio. Talvez não um frio de gelar os ossos, mas Theo era o que as pessoas chamavam de friento. Engraçado como as pessoas tinham nome para tudo.

Desceu do ônibus e correu – uma mão no bolso do casaco, a outra segurando a bolsa, à tiracolo. Só parou de correr quando chegou à uma marquise, depois de atravessar a rua em meio ao trânsito. Eram cinco e meia da tarde, mas o ocaso já estava próximo, e as luzes da cidade começavam a se acender.

Nos fones de ouvido do celular, Tiê dizia que deveria estar completamente avoada. Theo caminhava, de passos rápidos, em direção à República em que morava. Era junho, e o semestre de sua faculdade havia acabado hoje. Em duas semanas estaria fazendo dezenove anos, e – para Stephen King, de quem Theo era fã – havia um certo misticismo acerca deste número. Ele também acreditava nisso, ou acreditaria, se acreditasse em alguma coisa.

Atravessou outra rua, chegando à rua onde morava, pensando em quantas pessoas, assim como ele, vinham para São Paulo na esperança de encontrar o que procuravam. A maior parte das pessoas, ele imaginava, só queria um bom emprego, um plano de saúde, uma casa para abrigar a família. Theo, contudo, não sabia o que procurava.

Estava na cidade havia um ano, e as coisas estavam voltando à mesmice de outrora. Assim como antes, em São Paulo ele tinha amigos, tinha seus livros e tinha seu caderno. Frequentava shows e ia ao cinema quando podia (e o dinheiro dava). E havia a faculdade, que Theo adorava. Mas faltava-lhe algo, algo que desse sentido à sua vida, que o fizesse ansiar pelo amanhã. Algo que ele ainda não possuía. O que era esse algo, entretanto, ele desconhecia.

Abriu a porta de casa ainda pensando em algo.