Cecília (E os Balões)

Diz-me quem és tu, menina Cecília

De alva pele branca e cabelos da cor de trigais.

Folhas no Outono são teus olhos, castanho esverdeados,

E cheios e rosados são teus lábios.

 

Diz-me quem és tu, garota Cecília

Senão uma tempestade loira de trovões.

Tinges de mirtilo os cabelos, e vestes uma camiseta dos Strokes,

E trazes uma máquina fotográfica nas mãos finas.

De cenho franzido me olhas e me dás um sorriso lacônico.

 

O piercing em teu nariz

E o alargador em tua orelha

Tornam contemporânea tua beleza,

Outrora atemporal.

 

Tudo o que vejo, contudo,

São exteriores

Por isso peço-te outra vez:

Diz-me quem és tu, Cecília, mulher!

Diz-me o que o que te aprazes e o que te repugnas!

Diz-me o que tu pensas sobre a vida!

 

– Digo-te – diz-me – quem sou:

Sou Cecília, e isso é tudo sobre mim.

Digo-te o que me apraz,

Fotografar;

E o que me repugna,

A mesmice.

Consegues ser diferente? Ou nunca tentaste?

Digo-te o que penso sobre a vida,

Que cada vida é um balão.

 

– Diz-me – digo – se cada vida é um balão,

Para onde é que elas vão?

– Embora.

Semântica a Três

Para Hiago Vinícius e Mariana Prado, meus caros do Clube dos Três.

Theo estava deitado no colo de Lúcia, que estava sentada na cama, ao lado de Ângelo, que cochilava recostado ao ombro dela. O café, pela metade nas xícaras, esfriara, as garrafas de Stella jaziam vazias ao pé da cama, e dos cigarros só restavam as cinzas.

Theo – abreviatura de Theófilo – também dormia. Se estivesse acordado diria que era uma pena sua mãe ter escolhido logo esse nome, em meio a tantos nomes gregos bons.  Como Ângelo, por exemplo. Nome do qual deriva a palavra “anjo”, e de significado “mensageiro”, Ângelo acreditava ser sua missão na Terra levar sua literatura ao povo simples e de origem humilde. Era também puro como um anjo: dos três, era o único que não bebia ou fumava.

Lúcia – apesar de seu nome significar “iluminada”, em latim – preferia escrever sobre colchas brancas envoltas de trevas do que sobre a luz propriamente dita. Para Theófilo, “amigo de Deus”, seu nome não dizia nada sobre o que mais o aprazia: escrever sobre tudo e sobre nada – escrever sobre escrever.

E escrever era o que os três fizeram por toda essa tarde sabática de Outono. Escrever era a pedra sobre a qual edificaram sua amizade. Cada qual a seu modo, às vezes esbarrando no estilo do outro (mera influência), serviam ora de leitores, ora de revisores, e – em momentos como este – ora colegas de trabalho.

Ângelo acorda. Está atrasado e tem que voltar para casa, diz. Lúcia, que mora perto dele, também vai. Theo, desperto e sem colo, senta na beirada da cama e recolhe as garrafas do chão, que põe na cozinha. Cada um pega seu caderninho – suas preciosidades – e Theo despede-se dos amigos à porta. Em breve outra semana de correria, horários apertados e refeições mal-comidas começará, mas ele não se abate, pois outros  Sábados como este virão. E assim ele aprende, dia a dia, o significado da amizade.

Mnemósine.

As rosas em você eu memorizei. Seus olhos verdes eu memorizei. Sua pele clara eu memorizei. Sua mão na minha eu memorizei. Seu cabelo em meus dedos eu memorizei. Sua testa contra a minha eu memorizei. Seu nariz no meu eu memorizei. Seu último beijo eu memorizei. Suas últimas palavras eu memorizei. Seu último adeus eu memorizei. Cada centímetro seu eu memorizei.

Sua memória eu memorizei.