O Sonhador

“Não faz bem viver sonhando e se esquecer de viver.” – Harry Potter e a Pedra Filosofal

Acordou de seus sonhos mas não calçou seus sapatos da realidade. Já estavam gastos e apertados em seus pés. Preferiu descer da cama com cuidado, as pontas dos pés tocando o chão frio. Descalço, passos trôpegos e inebriados de sono, foi até a cozinha e preparou um café forte. Acendeu um cigarro, o qual apagou logo pela metade. Olhou através da janela. O Céu, cinzento como de costume, refletia em seus olhos castanhos, enquanto nuvens nublavam sua visão.

Manter-se preso à realidade enquanto acordado era uma verdadeira tortura. Apenas sonhando – mesmo que sonhando acordado – o Sonhador se sentia livre, apesar de ser livre apenas mentalmente. Mas, nas palavras de Stephen King, quando estamos mentalmente livres, nada mais importa. Sonhava e quebrava os grilhões que o atavam ao mundo, então já não importava se o Dólar estava em baixa, se havia crise na Europa, se ficar em casa era insuportável, se suas notas no colégio estavam péssimas, ou se cada olhar que recebia quando saía de casa era recheado de desprezo.

Sonhava com Invernos Eternos, com princesas vindas da Lua, com outros Mundos, Universos Paralelos, Realidades Inversas, povos vivendo no Subterrâneo. Sonhava para que – quando acordasse – suportasse mais algumas horas de realidade. Para que, quando levantasse e fosse à cozinha preparar seu café e olhasse através da janela, a visão daquele vasto mundo do lado de fora não o assustasse mais do que a ideia de explorá-lo.