Ritmo.

Vinho nas taças, vinho nas roupas, vinho no chão. Rosas na pele e fogo nos olhos. A escuridão adensava o ar tornando impossível para um voyeur distinguir quem era quem. Só havia os odores, os sons, o tato. Um misto de perfumes diferentes suor e sexo. Corações ritmados respirações ritmadas corpos ritmados.

Mãos mãos beijos beijos pernas pernas mordidas mordidas beijos beijos ritmo ritmo ritmo ritmo ritmo ritmo sussurros sussurros respirações respirações  gemidos gemidos êxtase êxtase respirações respirações ritmo ritmo ritmo ritmo ritmo ritmo.

E depois, Paz. Corpos tombados doloridos risos abraços e mais beijos. Agora dormem, respirações lentas e profundas e ritmadas. Abraçados um ao outro, Morpheus embala-os. Que deixem para a Aurora os vergões, os arroxeados, as dores. Por ora o que importa é o Silêncio. O Érebo. Selene, Crescente no céu. Que deixem para a Aurora as despedidas, a tristeza, as lágrimas. Por ora, celebrem a Noite e todos os prazeres que Ela oferece.

Egonizando.

Essa sala era tão grande

E as paredes tão distantes…

Caminhou de passos trôpegos. Não, não estava bêbado – não ao menos dessa vez. Estava ferido. Por isso caminhava de passos trôpegos. Não soube quantos passos deu, o importante no momento era permanecer de pé e caminhar em seus passos trôpegos. Depois – se houvesse um depois, poderia preocupar-se com isso. Olhou-se no espelho, agonizante. Encontrou seus próprios olhos a observar-lhe. Seu reflexo sentia pena dele, assim como ele sentia pena do que via diante do espelho. Sentiu-se só. Tão grande era a sala em que encontrava, e tão distantes eram as paredes, que sentiu-se nu, desprotegido. Quis encobrir-se com um lençol, como uma criança amedrontada na hora de dormir.

O teu lençol não vai te proteger do calor do sol, não vai te proteger de sentir-se só.

Sacudiu a cabeça, na esperança de afastar tais pensamentos. Sentiu vertigem. No piso de madeira vomitou sangue, já que em seu estômago nada mais havia. Com o sangue que expeliu, marcou o espelho com a palma da mão. Uma última tentativa de deixar sua marca no mundo. Na falta de palavras, arremessou longe o espelho. Cada som feito pelo vidro partindo-se era o som dele partindo-se por dentro e sucumbindo.

Me questionando: o que será de mim? E o que será de mim?

Morte. Estava morrendo, mas isso não o assustava. O que o assustava era estar morrendo sozinho. Quando disseram isso para ele, não quis acreditar. Forçou uma risada. Gracejou. Mas agora, que a hora finalmente havia chegado, não havia como negar. Toda criatura viva na Terra morre sozinha”. Constatar isso havia sido a parte mais dolorosa. Seu interior queimava de dor. Sangrava. Morreria, sim, finalmente, mas sozinho. Sozinho. Sozinho.

(baseado em música homônima da R.Sigma, a qual ouço e admiro profundamente)

Metalinguagem.

Páginas em branco, vazias como eu. Folheio, alheio, enquanto tento pensar. “O que escrever?” eu me pergunto. Metafísica? Metonímia? Metástase? Metalinguagem? Sim e não. Escrever sobre a vida, e escrever sobre a morte. Sobre a luz e sob as trevas. Escrever sobre tudo, e – sobretudo – sobre nada. Escrever sobre o riso, sobre o choro, e sobre chorar de tanto rir. A florescência da Primavera, e a cadência do Outono. O calor do Verão e a gelidez do Inverno. Escrever sobre alguém, e sobre ninguém em especial. Apenas escrever. Escrever sobre escrever.

O Silêncio de Brunna

Cacofonias. Desarmonias. Dissonâncias.  Poluição sonora. Em meio a uma multidão de pessoas gritando sua ignorância, tentando assim abafar o que gritavam dentro de si, o que ouvi de Brunna quando a conheci soava como uma calmaria após a tempestade. Para dizer a verdade, foi o que eu não ouvi. Nada de cacofonias, desarmonias e dissonâncias. Nada de poluição sonora. Apenas Silêncio. Como se já não fosse o bastante para que eu a invejasse, Brunna era tão silenciosa por dentro quanto demonstrava ser por fora. Silêncio. Calmaria. Paz.

Tornou-se consenso entre os seres humanos considerar incômodo o Silêncio. Desembestam a falar, aleatórios, sufocando o Silêncio e tudo o que ele traz. Talvez seja por que, em meio a tanto Silêncio, seus gritos interiores tornem-se insuportáveis. Não sei. Jamais permiti a mim um momento sequer de Silêncio. Até conhecer Brunna.

Entre os tantos Silêncios que incomodam, o Silêncio de Brunna se destacava. Sua calma plácida e sua expressão serena – tão rara nesse Novo Mundo ao qual pertencemos – acalmava também a mim e tudo o que eu tinha vontade era de falar. Falar e falar. Não para que o Silêncio fosse quebrado, já que mesmo quando ela falava o Silêncio permanecia consigo, e sim na esperança de que um pouco desse Silêncio passasse para mim junto às respostas de Brunna.

Tal desejo mostrou-se sempre irrealizável. Não havia Silêncio algum dentro de mim. Tudo o que havia eram pensamentos barulhentos e estridentes, desesperados para ser ouvidos. Todas as minhas vãs tentativas de tomar um pouco d’aquele Silêncio para mim mostraram-se infrutíferas. E tão desejoso eu estava por silenciar o que havia em mim que esqueci-me de tentar ouvir o que aqueles pensamentos gritavam, e acabei por tornar-me surdo para mim mesmo.