As Time Goes By

Deitado no que costumava ser o nosso sofá, ouvindo uma taça de vinho e bebericando Frank Sinatra, abro aquele caderno e suas páginas estão empoeiradas como o piso de madeira dessa casa. Espirro. Sou alérgico, tu o sabes, no entanto é melhor e mais fácil me preocupar com a presença de ácaros nas minhas vias respiratórias do que com a ausência de quem mais deveria estar aqui. Tu. Nós. Mas, para hoje, há apenas a primeira pessoa do singular dos pronomes pessoais do caso reto. Eu. Coço o nariz. Dou uma fungadela. Pronto, melhor assim.

Na primeira página há uma foto do que costumava ser “Nós”, antes em preto e branco, agora, contudo, amarelada como as paredes dessa casa (e, noto agora, como as páginas desse caderno). Admiro (a foto, não as paredes). Isso nos teus lábios é um sorriso? Sim, é sim. Há tempos não vejo um (sorriso), mas agora começo a me recordar de como são.

Viro a página (do caderno, não da vida). “Dia Primeiro – 22 de Abril”. Ah, não. Conheço esse dia de longa data, se me permitis a redundância. Dia do Descobrimento, eu sei, mas não é sobre o Brasil que estamos falando. Dia florido e ensolarado. E quem me conhece (se é que alguém me conhece) sabe como odeio as flores e os dias de sol. Mas não nessa época, claro. Nessa época o que mais me alegravam eram as flores e os dias de sol. E tu. Passei a odiá-los por tua causa. Estou entediando-vos, eu sei, pareço até um velho nostálgico. Mas, se algum de vós pudesse ver a mim aqui, deitado nesse sofá, não veria nada além de um velho nostálgico, amarelado e empoeirado (como as páginas desse caderno, como as paredes e o piso dessa casa).

Bebo mais um pouco de Frank Sinatra, ponho a taça de vinho para tocar novamente. Respiro fundo e viro a página (outra vez). E viro outra vez. E outra. E mais outra. Tantas páginas eu viro e tamanhas as vezes que, quando termino de folhear o caderno e dou por mim, a noite já caiu. O céu escuro e nublado chove. Meus olhos escuros e nublados chovem também. Goteiras molham as paredes amareladas e o piso empoeirado, e as goteiras dos meus olhos molham também as páginas amareladas e empoeiradas.

Fecho (o caderno, os olhos também). Não sinto o sono chegar, mas antes que a inconsciência me abrace e me leve para si ainda ouço um último verso do vinho:

As Time Goes By.