Estranha

Levanto. Vou embora, digo.  Tu, porém, não dizes palavra alguma, apenas levantas o olhar para mim, o cenho franzido. Fica, teus olhos parecem dizer. Quando me olhas assim, da beirada da cama desse quarto de hotel barato, as mãos entre as pernas, não há como não desfazer-me à tua vontade. Fico, cedo. Engraçado como os lençóis que te envolvem parecem feitos para vestir-te.

De pé, ao lado da cama, tudo o que vejo é uma Estranha. Outras noites como essa vieram e foram-se; para mim, contudo, é como se tivéssemos acabado de nos conhecer. Mas como pode uma Estranha parecer-me tão familiar? Talvez seja eu também um Estranho? Quem sabe, então, tenhamos em nossas estranhezas algum ponto comum?

Não preciso de ninguém, nem tu o precisas – perdoa-me se isso parece tão certo. Tudo o que me arrisco a pedir é que não te vás ao fim da noite, quando finalmente consigo cair no sono. Fazes isso para permanecer uma Estranha, eu sei, mas é justamente contra isso que estou tentando lutar. Contra toda essa intocabilidade com que revestes a ti mesma.

Deito-me outra vez, o cansaço começando a fazer-se presente. Minha vigília não pode ser eterna, então peço outra vez: fica por esta noite – ao menos por esta noite – e deixa eu descobrir como teu cabelo fica quando banhado pela Aurora que escapa por entre a persiana. É só por esta noite, juro. Depois podes ir-te embora, como sempre o fazes, e não voltar antes de uma volta de Lua.

Para que permaneças uma Estranha para mim.

O que tinha de ser feito.

O homem é o ser mais cruel que existe, dissera seu pai certa vez. Ele jamais esqueceu-se disso, talvez a coisa mais significante que seu pai já dissera. E, mais uma vez ele ouviu esse trecho de memória vindo à sua cabeça. Sim, o homem é cruel, pensou uma parte de si, em resposta. Ele já havia sentido essa sensação antes, essa frieza vinda de outras pessoas. Mas agora ele pôde experimentá-la vinda de si próprio. Você não é diferente, o outro lado acrescentou. E sabia disso.

O mais estranho de tudo, é que ele havia gostado daquilo. Havia gostado de sentir que a vida de outra pessoa dependia dele, exclusivamente dele. Na escuridão em que se encontravam, não pôde ver seus olhos, mas pôde senti-los. Pôde sentir a estranha resignação que neles havia, sabendo o que aconteceria logo em seguida. Também pôde sentir uma pequena esperança, como uma centelha à procura de algo ao qual apegar-se e incendiar-se numa esperança maior.

Entretanto, se – por um momento – os olhos dela encontrassem os seus, saberia que não aconteceria de outro modo. Seus olhos não se encontraram, contudo, e ela morreu como viveu, de olhos fixos ao chão. Apenas um tiro e nada mais restava do que havia sido ela, ou do que representara para ele. Abaixou-se para fechar os olhos dela. Os mesmos olhos que antes haviam-no feito sorrir, que ele adorara olhar para eles e vê-los se desviando, logo em seguida.

Recordar-se disso não fez com que se sentisse pior. Tampouco fez com que se sentisse melhor, pois não era possível que estivesse bem naquele momento. De algum modo, ele já sabia o que teria de acontecer. Fez o que tinha de ser feito. Já tiraram tudo de mim, pensou ele, não deixaria que tirassem-na de mim também. Então ele mesmo tirara-a de si. Fiz o que tinha de ser feito.

(Junho de 2011)

05:21

05:21. Em um minuto, ele viu – como se fosse uma hora – uma roda de amigos de-uma-noite. Pessoas que ele jamais veria outra vez depois de nascido o sol. Alguns tentavam, em posição fetal, dormir. Outros dois cantavam uma melodia ébria. Uns poucos falavam falácias de fim de noite, rindo de tudo o que era dito. Um, entretanto, apenas escrevia – ininterruptamente. Escrevia para que sua vida fizesse um pouco de sentido nas páginas sem pauta de seu bloco de notas. A caneta de tinta azul já começara a falhar. Em um minuto, ele escreveu – como se fosse uma hora – tudo o que pôde observar. 05:22.