Epílogo.

No silêncio que se seguia, o bater de teclas de uma máquina de escrever era o único som que se ouvia em quilômetros. Tec tec tec. A terceira hora da madrugada havia chegado e passado, sem que ele notasse. Um cigarro apagado pendia frouxo de sua boca, entreaberta, revelando seus dentes amarelentos. Absorto em sua escrita, sequer lembrou-se de acendê-lo. Pausa para o café, já frio. E tec tec tec outra vez.

No Prólogo, constatou: “às vezes gostaria que a Vida fosse um livro. Então, quem sabe, no Epílogo, eu não tivesse um final feliz?” Ele não acreditava em finais felizes. Tampouco em felicidade, divindade, ou em qualquer outra palavra terminada em -ade, não fosse quando escrevia-nas nas páginas de seu livro. Só acreditava no que escrevia. E era isso que movia-o. Escrever. Esquentar as palavras até que ficassem brilhantes, e então martela-las (ou melhor, tecla-las) e molda-las à sua vontade.

Mas o impasse enfim chegou. O Epílogo. O que escrever na conclusão de seu livro, de sua vida? O Epitáfio de sua história, já moribunda. Rezou a um deus que não acreditava, à espera de uma luz que mostrasse o que escrever em seu tec tec tec sem fim. O esclarecimento não veio. A luz que brilhava em seus olhos não era nada senão o reflexo da lamparina à sua esquerda.

A resposta para sua prece só chegou junto à primeira luz da Aurora, no formato de um revólver. “Vida nada é senão uma sólida solidão que só lhe dá desgosto”, concluiu. E o barulho do disparo poderia ter sido facilmente confundido com o tec tec tec da máquina de escrever que agora jazia imóvel.

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4 pensamentos sobre “Epílogo.

  1. Ao passo em que ele descreve a escrita para ele, já elaborava um comentário do tipo “Sou assim”, até eu terminar de ler e sentir o trágico fim de uma vida mal escrita.
    Belo texto Sir, seu modo de transpor as palavras em sua maioria me agrada muitíssimo. :)

      • Ora, ora… Então defini bem, sem o querer, sua escrita. Mas menos por uma leitura superficial da para sentir assim, é muito expressivo nesse sentido… Muito bom, deprimente… Mas bom, rs.

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