Inércia.

O quarto estava todo vazio, não fosse pelo garoto que parecia dormir sentado no chão, próximo a um dos vértices do quarto. No teto, um ventilador rodava e rodava, como um cinematógrafo. Todo o quarto era de um branco tão encardido quanto os dentes de um fumante assíduo: o piso do chão, as paredes nuas e acolchoadas, as roupas do garoto, até mesmo sua própria pele. Apenas seus cabelos se destacavam nesse ambiente cru e sem vida. Pretos, não como asas de corvos, e sim como a própria escuridão.

A lâmpada fluorescente, presa ao ventilador de teto, começou a falhar. Ele abriu os olhos. Dois buracos negros, sem fim nem começo, contemplavam a parede à sua frente, quase sem piscar. Como um telão de cinema, a parede encheu-se de cenas de uma realidade inversa.

Um garotinho de boias em ambos os braços corria em direção ao mar. Uma mulher, talvez sua mãe, corria atrás dele, com medo de que se afogasse nas pequenas ondas que arrebentavam próximo dali, espumando e

[corta]

O mesmo menino, agora um pouco mais velho. Seu corpo jazia no chão, o pé direito ensanguentado. Sua sandália de couro estava dilacerada. Uma garota que aparentava ter oito anos olhava-o, horrorizada. Umas poucas pessoas começavam a se aproximar, cochichando e

[corta]

A vida segue. Quase quatro anos separam essa cena da anterior. Ele estava com a cabeça encostada no vidro do carro, olhando a paisagem que passava apressada por ele. Sua respiração embaçava o vidro, enquanto lágrimas serpenteavam como um rio em direção à foz. Tudo o que ele conhecia havia ficado para trás. Agora, o desconhecido abria-se diante dele. Um mundo inteiro a descobrir e tudo o que ele queria era

[corta]

Adormeceu. Em seu sono, sonhou que era Outono. Sonhou que observava as estrelas, deitado na grama. Sonhou com um Trem. Sonhou que sonhava sonhos de amor. Sonhou com outras cenas há muito registradas e, aparentemente, esquecidas.

Mas isso fora há tempos. Flashs de sua vida passada. Tudo o que hoje possuía era uma antivida. Uma versão sintética, artificial. Um Fantasma do que fora, o Coveiro de sua própria cova, um Sol sem luz própria, um Epílogo não terminado, o Mr. Hyde do Dr. Jekyll. Ele era o Tempo. Nem pretérito, nem presente… tampouco futuro. Apenas o Tempo.

Silêncio (ou Sala de Estar)

Eles estavam na Sala de Estar havia dois dias. Há dois dias ele havia batizado o lugar de Sala do Mal Estar. Era o que ele vinha sentindo ali desde então. Há dois dias ambos não saíam da Sala de Estar. Há dois dias não comiam ou bebiam nada. Há dois dias não dormiam.

Sinto falta de ouvir algo de você que não seja Silêncio”, ele pensou em dizer. Mas Silêncio foi o que saiu de sua boca. Silêncio era a única coisa que se ouvia naquela Sala de Estar há dois dias. O toca-discos estava mudo. As janelas estavam tapadas por grossas cortinas de veludo preto. A lareira, apagada. Até os quadros, que antes pareciam mexer-se, agora estavam imóveis e sem vida.

Ela estava sentada com os pés no sofá. Seus braços, brancos e finos, abraçavam seus joelhos. Os lábios estavam franzidos. Há dois dias ela esperava alguma palavra dele. Mas Silêncio era o que vinha. Ela pensou em dizer “me desculpe, eu sinto muito”, mas calou-se. A culpa desse Silêncio era dele. Mas isso havia sido há dois dias, desde então não pensara em dizer mais nada.

Seus olhos, pretos, estavam arregalados como os de uma criança pega em flagrante num ato duvidoso, e moviam-se sem parar. Do toca-discos para as janelas, das janelas para a lareira, da lareira para os quadros na parede, dos quadros para ele… então olhava de volta para o toca-discos, e o ciclo recomeçava.

Nesse dilema de pensar em falar e esperar que o outro falasse, eles ficaram outros nove dias, até que morreram ali mesmo, na Sala de Estar. O motivo do Silêncio nunca foi descoberto. Pois, quando o amor morre, arrasta tudo o mais para a Morte.

Ensaio Sobre o Amor

Há muito se discute sobre o Amor. Se é benéfico, se causa dependência psíquica, se é a solução para a convivência humana em sociedade. Até hoje não se sabe, entretanto, se o que chamamos Amor realmente existe, ou se é apenas outro substantivo abstrato sem sentido criado para nos prender a uma realidade inexistente.

Tomando por premissa que o Amor realmente exista, ainda assim encontra-se dificuldade em explicar o que ele é. Tentarei expor, então, o que ele não é. Ferida que dói e não se sente não é amor, é hanseníase. Em casos de suspeita, procure um médico. Querer estar preso por vontade; servir a quem vence, o vencedor, tampouco é Amor. Isso chama-se alienação, e não é nem um pouco amorosa.

O Amor é facilmente encontrado em livros, sejam eles romances, novelas, contos ou crônicas. O Amor está em tudo. Sempre existe uma personagem que ama outra. Nem que seja citado apenas de passagem, o Amor está lá. Há, entretanto, uma diferença básica entre os livros e a vida: nos livros você sempre sabe quando acaba.

Comete-se, contudo, um erro crasso ao discursar-se sobre o Amor. O Amor não é imortal. Não transcende vida após outra. Não cobre multidão de pecados. Pelo contrário, os pecados sufocam-no e asfixiam-no. E não diga, caro leitor, que precipito-me ao fazer tal afirmação. O Amor puro, em sua essência, há muito já não existe, sufocado pelas nossas transgressões humanas. O Amor morreu, e ninguém foi ao seu velório, tampouco fez uma Nota de Óbito.

Sol da Meia-Noite

Seu corpo, de bruços, parece emitir luz própria. Você dorme, e eu – em minha típica insônia – fico aqui, a observar-lhe. Sua mão esquerda repousa a seu lado. A direita ainda segura minha mão, assim como quando você adormeceu. Seu dorso cintila um brilho perolado. Os lençóis, brancos, emaranhados, tapam-lhe o corpo do cóccix para baixo.

Dançamos nossa dança pela Abóbada Celeste, e a cada crepúsculo morro para renascer no dia seguinte. Se não tivéssemos nomes, chamar-lhe-ia Selene e, a mim, Helius. Mas é você quem é um Corpo Iluminado, eu sou apenas o reflexo da sua luz projetada em mim.

Inerte neste espaço, eu poderia passar todo o tempo a contemplar-lhe. Atemporal. É isso que você é. O relógio de pêndulo soa o som da meia-noite. É isso que você é. Meu sol da meia-noite.

Coluna Social

Saturday, June 16, 2012 – Victory’s Island, Holy Spirit, Brazil.

O jovem escritor Reuel Luiz completa hoje 17 anos. Amante dos livros e das temperaturas amenas, Reuel está preocupado com sua escrita. Segundo ele, por mais que escreva quase todos os dias e leia bastante, não consegue melhorar seu modo de escrever. Apesar de ser elogiado por alguns outros ingênuos jovens pela internet, onde mantém um blog literário, o pequeno escritor não se dá por satisfeito. Quando questionado sobre os planos para seu aniversário, Reuel Luiz diz que vai aproveitar o sábado e colocar sua leitura em dia. “Estou atrasado,” diz. Por mais jovem que seja, Reuel é ambicioso. “Assim nunca conseguirei um prêmio literário importante, como o Jabuti ou o Camões,” afirma. Só nos resta torcer e esperar que ele alcance seus objetivos. Sua mãe, Maria Aparecida, que mora em uma pequena cidade de Minas Gerais, também faz aniversário hoje, completando 48 anos.