Ensaio sobre a Tristeza

Durante toda a História, muitos males, pragas e doenças assolaram a espécie humana e ameaçaram nossa condição de ser supremo entre os outros animais. Com o avanço da tecnologia, entretanto, esses males exteriores deixaram de constituir ameaça, dando lugar a ameaças interiores, fantasmas deixados por nós – homens – que refletem nossa alma, nosso desespero como ser frágil em meio a um mundo em que viver fora da sociedade se torna inconcebível.

De todos os fantasmas que assombram o homem contemporâneo, o mais belo e temido é – sem dúvida – a Tristeza. Alguns, talvez, prefiram dizer que a Tristeza é apenas a segunda dos mais temidos, e que a Morte – sim, a morte! Vejam só que ultraje! – é a mais terrível de todas as sombras que se formam com a luz da vida humana. Mas, outros – como eu – preferem acreditar que, em meio à tamanha Tristeza, a Morte vem como uma bênção, uma amiga há muito esperada. Outros preferem chamar à Melancolia o mal do século. Mas que é a Melancolia, senão filha mais nova da Tristeza, e irmã mais bela e taciturna da primogênita Depressão? Contudo, deixemos de lado essas indagações e voltemos à nossa musa inspiradora: a Tristeza.

Querendo ou não, a Tristeza vem. E você a vê. Você a ouve. Você a sente. E você diz, “entra, que tu és de casa”. E diz isso não por amizade, tampouco por compaixão – por vê-la ali, parada à soleira de sua porta, como uma pedinte. Você a convida, pois sabe que ela não irá embora assim, facilmente. Prefere oferecer uma poltrona, café, chá, alguns cookies, até que ela se farte de sua monotonia e se dirija a outro lugar. E, se há algo que se pode dizer da Tristeza, é que ela trabalha incessantemente. Dia e noite, em meio ao sol e à chuva, tempestade ou nevasca, aí está ela. Inatingível, Inabalável, Inexpugnável, Invencível. Levando sua inconfundível presença aqui e acolá. Praticamente onipresente.

Ah, a Tristeza! Mil heróis venceram batalhas, desafios, conquistaram donzelas, e pereceram diante de ti! Escrever-se-iam epopeias sobre tua grandeza, se não fosses tão difícil de exprimir em palavras. Mesmo eu, estudioso das propriedades da Tristeza há muitos anos, me perco e tropeço nas palavras ao tentar explica-la. Enquanto isso – por falta de expressões suficientemente adequadas para descrever a mais sublime das sombras humanas – opto por recebê-la em minha casa sempre que me dá essa honra, e pensar nela como uma amiga, uma companheira de caminhada e minha maior inspiração.

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Um pensamento sobre “Ensaio sobre a Tristeza

  1. Gostei da ideia do texto, essa temática muito me interessa. Quando tiver oportunidade, leia “O Mal-estar da pós-modernidade” de Zygmunt Bauman, de repente poderá aprofundar a discussão.

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