O Coveiro (ou Cemitério dos Sonhos)

Há um cemitério dos sonhos; e o Coveiro sou eu. Cavo para meus sonhos não simples sepulturas de terra para simples caixões de pinho, mas faço verdadeiros mausoléus para seu descanso eterno. Banho-os nas águas do Styx – o rio do Submundo – e envolvo-os em mortalhas de linho branco. Os corvos, incapazes de sonhar que são, aglomeram-se aos montes ao redor das tumbas. Empoleiram-se e grasnam, à espera de – num momento meu de distração – poder violar os túmulos e mordiscar fragmentos dos sonhos que guardo.

Nessa rotina de cavar sepulturas, construir mausoléus e afastar os corvos, pouco tempo tenho para mim mesmo. A questão é que a taxa de mortalidade infantil dos sonhos é altíssima. Mal são concebidos e já morrem. Em sua maioria, sequer têm tempo de crescer e se realizar. São umas coisinhas ínfimas, mal cabem na palma de uma mão. Dá dó vê-los assim, tão vulneráveis e frágeis. Então lembro-me que já não há vida neles. E logo ponho-me a cavar novamente.

Ponho em prática todos os conhecimentos aprendidos n’O Manual do Coveiro, para que esses belos sonhos encontrem algum conforto na morte. Na esperança de que sejam sonhados por novas pessoas, para que possam ser concebidos novamente a esse mundo e se realizem. Mas muitas vezes essas não passam de vãs esperanças. Por isso, em um apelo sincero, peço-vos: não deixeis que morram os sonhos. Pois há apenas um cemitério dos sonhos, e o Coveiro sou eu.

Terra à vista!

Em meio a sua galáxia particular, onde ninguém poderia alcança-lo, deixou que as dúvidas inundassem-no num oceano de palavras. Suas certezas, à deriva, se afastavam cada vez mais, lentamente, baloiçando nas águas. Seus sonhos, incapazes de nadar, afundaram-se e afogaram-se. Olhou-os e nada sentiu. Mesmo que não soubesse para onde estava indo, sabia que não haveria lugar para eles lá.

Guardou junto de si seus amores passados, apenas como uma doce recordação dos tempos de garoto. Somente a Tristeza o acompanhava. Tem sido sua mais fiel companheira por todo este tempo.

Como um náufrago, agarrava-se a uma única ideia, fazendo dela o pedaço de madeira que salvaria sua vida em meio a esse mar de gente – seguir em frente. Com a chegada da Aurora, uma dádiva iluminou-se a Oeste. Terra à vista!

Ensaio sobre a Tristeza

Durante toda a História, muitos males, pragas e doenças assolaram a espécie humana e ameaçaram nossa condição de ser supremo entre os outros animais. Com o avanço da tecnologia, entretanto, esses males exteriores deixaram de constituir ameaça, dando lugar a ameaças interiores, fantasmas deixados por nós – homens – que refletem nossa alma, nosso desespero como ser frágil em meio a um mundo em que viver fora da sociedade se torna inconcebível.

De todos os fantasmas que assombram o homem contemporâneo, o mais belo e temido é – sem dúvida – a Tristeza. Alguns, talvez, prefiram dizer que a Tristeza é apenas a segunda dos mais temidos, e que a Morte – sim, a morte! Vejam só que ultraje! – é a mais terrível de todas as sombras que se formam com a luz da vida humana. Mas, outros – como eu – preferem acreditar que, em meio à tamanha Tristeza, a Morte vem como uma bênção, uma amiga há muito esperada. Outros preferem chamar à Melancolia o mal do século. Mas que é a Melancolia, senão filha mais nova da Tristeza, e irmã mais bela e taciturna da primogênita Depressão? Contudo, deixemos de lado essas indagações e voltemos à nossa musa inspiradora: a Tristeza.

Querendo ou não, a Tristeza vem. E você a vê. Você a ouve. Você a sente. E você diz, “entra, que tu és de casa”. E diz isso não por amizade, tampouco por compaixão – por vê-la ali, parada à soleira de sua porta, como uma pedinte. Você a convida, pois sabe que ela não irá embora assim, facilmente. Prefere oferecer uma poltrona, café, chá, alguns cookies, até que ela se farte de sua monotonia e se dirija a outro lugar. E, se há algo que se pode dizer da Tristeza, é que ela trabalha incessantemente. Dia e noite, em meio ao sol e à chuva, tempestade ou nevasca, aí está ela. Inatingível, Inabalável, Inexpugnável, Invencível. Levando sua inconfundível presença aqui e acolá. Praticamente onipresente.

Ah, a Tristeza! Mil heróis venceram batalhas, desafios, conquistaram donzelas, e pereceram diante de ti! Escrever-se-iam epopeias sobre tua grandeza, se não fosses tão difícil de exprimir em palavras. Mesmo eu, estudioso das propriedades da Tristeza há muitos anos, me perco e tropeço nas palavras ao tentar explica-la. Enquanto isso – por falta de expressões suficientemente adequadas para descrever a mais sublime das sombras humanas – opto por recebê-la em minha casa sempre que me dá essa honra, e pensar nela como uma amiga, uma companheira de caminhada e minha maior inspiração.

Marcos.

Pra ele, aquilo era uma tortura; pra ela, só mais um dia de trabalho. Recepcionista de uma clínica de exames admissionais, ela vez ou outra ajeitava a franja com a mão, ciente de cada olhar dele.

Levantou-se e foi na direção dela.

– Nome? – ela perguntou.

– Marcos – disse. Pensou em perguntar também o nome dela, mas seria uma pergunta estúpida, já que ela usava um crachá. “Karina – Recepcionista”, dizia.

– RG, por favor.

Ele entregou a ela sua identidade e aguardou alguns minutos enquanto ela consultava seu computador.

– Admissional ou demissional?

– Demissional.

– Certo. Aguarde até ser chamado.

Até ser chamado. Era esse o problema. Detentor de um pavor de sangue, Marcos desmaiara da última vez em que fizera um exame admissional. Tiveram que carrega-lo e coloca-lo em uma cadeira até que ele voltasse a si. Não queria que isso acontecesse de novo. Não ali, com aquela recepcionista por perto. Sentou-se de frente a ela e aguardou.

De tez clara e cabelos alourados presos num rabo de cavalo, Karina trabalhava por seis horas – segunda à sexta – pra pagar seu técnico em enfermagem que cursava à noite. Seus olhos verdes iam de um lado a outro enquanto consultava os registros de outros pacientes.

Marcos fitava nervosamente a sala de espera. As paredes brancas. O carpete verde musgo, as cadeiras de plástico – também verdes. Nas paredes, alguns quadros de mau-gosto e um suporte pra televisão. Ana Maria Braga fingia ensinar uma receita qualquer. Sexta-feira 13, pensou, Sexta-feira 13. Ele não podia afirmar que era supersticioso, mas aquilo não podia ser bom sinal.

Depois do que pareceram horas – na verdade, apenas quinze minutos – uma mulher de jaleco branco entrou por uma porta, que manteve entreaberta e disse:

– Marcos. Comigo, por favor.

Mais tarde, Marcos não soube dizer como aquilo havia acontecido. Por um momento, ele se encontrava sentado e a mulher se preparava para tirar uma amostra de sangue. No outro, ele se levantava – pálido como leite – e saía correndo, passando pela sala de espera e indo embora. Talvez tenha sido a agulha que ela enroscava na seringa. Ele não tinha certeza.

Tudo aconteceu rápido demais. Sua fuga inesperada; o caminho de volta pra casa, dirigindo alucinadamente; seu desespero, depois de refletir sobre o que tinha feito. Só em casa percebeu que havia deixado seu RG com a recepcionista, que o entregaria de volta junto com o resultado do exame, que sairia na hora. Junto com o exame que ele não chegou a realizar.

Durante a noite, enquanto abria seu perfil no Facebook, Marcos se deparou com uma mensagem. “Karina quer ser sua amiga”. Aquilo não poderia ser possível. Ou melhor, poderia. Ela poderia ter procurado pelo seu nome completo – que estava escrito no seu RG – e poderia tê-lo adicionado. Com um meio sorriso de incredulidade no rosto, clicou em aceitar solicitação e deixou um recado em seu mural:

“Acho que você ficou com a minha identidade. A gente deveria se encontrar, pra conversar um pouco, e pra que você possa devolvê-la pra mim.”

Não foi, afinal, um dia tão ruim assim.

Reminiscências de um Fantasma do Século XX.

Eu, o fantasma, caminho pela cidade. Invisível aos olhos de meros mortais, indignos de verem o que os aguarda post mortem. Mas, para mim – que ultrapassei a linha tênue que separa a vida da morte – não há segredo algum.

Assim como meu corpo, a maior parte das minhas lembranças há muito se perderam, se decompuseram. Só me restaram os ossos – as memórias que me davam sustentação. E até elas um dia se esvairão e se desintegrarão – reintegrarão o cosmos. De todas essas recordações que ainda me restam, a mais bela e importante é você.

Nos tempos em que eu ainda vivia dizia-se que só se dá valor ao que se tem quando se perde. Clichês à parte, essa é apenas uma meia-verdade. Nós, seres humanos, só damos valor ao que temos quando morremos. Quando ainda podemos ver tudo o que um dia nos pertenceu, mas não nos permitem tocar. Só assim é que percebemos como coisas e pessoas são indispensáveis em nossas vidas. Ver você todos os dias com ele é o que podemos chamar inferno na Terra. Esqueça as chamas e a danação eterna, isso é infinitamente pior.

Ainda me lembro – mesmo que vagamente – como nós dois nos uníamos, nos completávamos. Como sempre terminávamos as frases juntos e ríamos das mesmas coisas mesmo sem trocar uma palavra de explicação. Como você me abraçava e me mordia – me beijava. Pretérito e imperfeito, sim, eu sei. Mas, como disse, ver vocês juntos – como eu e você costumávamos estar – é torturante. Ele sequer entende as piadas não ditas nos filmes dos quais nós costumávamos rir. Não despenteia seu cabelo, não te irrita, não derruba no chão e te cobre de beijos. Enfim, não merece alguém como você.

Talvez tudo isso não passe de minha imaginação. Faz tanto tempo, que já nem sei. Mas a morte – acima de todas as coisas – é real. Contudo isso não faz com que seja menos real pra mim, sejam todas essas reminiscências imaginadas ou não. Mas, cá entre meu céu cinza e minhas árvores sem folhas, desejo que você encontre alguém como eu. Alguém como eu fui pra você.