Cena.

Um quarto escuro. Um corpo Inerte. Uma cena.

O olhar fixo sugere um pensamento, também fixo. O corpo imóvel contrasta com a turbulência de imagens que se passam em sua cabeça.

Apenas uma cena, repetida várias vezes.

Apenas uma cena repetida…

Apenas uma cena.

[corta]

Um espelho. Uma pia. Uma navalha.

Ele se olha no espelho. Lava o rosto na pia. Pega a navalha.

A barba crescida torna seu semblante irreconhecível. Apenas os olhos indicam o rosto jovem e belo que há ali. A navalha, de prata, pesa em sua mão trêmula. As costas da outra mão, ele passa pelo pescoço. Por que não cortar logo essa garganta, e acabar com o que resta de vida nele? Por dentro ele já está morto. A verdadeira morte viria como uma bênção.

[corta]

Uma garrafa. Um Copo. Uma poltrona.

Ele abre a garrafa. Enche o copo. Desmorona sobre a poltrona. Há tempos ele não tem estado sóbrio. Quanto tempo? Muito tempo. Nenhum tempo.

Ele toma um gole da bebida. Whisky. O olhar vidrado contempla o papel de parede, sem nada enxergar. Em sua cabeça, apenas uma cena, repetida várias vezes.

Apenas uma cena repetida…

Apenas uma cena.

[corta]

Fiz o que tinha de ser feito.

um dia.

Seria apenas mais um domingo de inverno. Mais um domingo que passaria com você. Assistiríamos a um filme – de sua escolha, claro; quem entende de filmes é você – deitados em nosso sofá. Juntos. Tão juntos que tudo o mais perderia o sentido e deixaria de precisar de explicação.

Todo domingo seria assim. Entremearíamos beijos e risadas. Sem nenhum motivo, jogaria pipoca no seu cabelo, apenas para ver qual seria sua reação, e riria de todos os nomes que usaria para me xingar. Em meio ao frio, aqueceríamos os corpos um do outro, e nossos corações, aqueceríamos com café.

Abraçados, observaríamos o céu cinzento sobre nossas cabeças, e acenderíamos cigarros no fim da tarde. E o ocaso viria como uma promessa de um novo dia, ainda melhor. Um novo dia com você.

Trem.

Quando, pelos trilhos, passa com desdém

Indiferente aos pequenos que vêm

Assistir àquele que do assovio advém.

Sussurros gritados pra todos e pra ninguém

Vês quem está chegando? É o trem!

Amor, vírgula e uma interrogação.

Dizes que é amor, mas que é o amor?

Que é o amor para ti?

Tantas palavras pra descrever, rotular, etiquetar, parafrasear o que dizes sentir, escolhes logo a mais banal e vil das palavras, tão passível de ser usada e descartada quanto tuas opiniões mal-formadas sobre tudo.

Neste fragmento de texto, repito a ti a pergunta:

Que é o amor?