Carta Pra Quando Você Voltar

Aqui estou eu, mais uma vez. A cada mês que passa, eu me sento e escrevo outra carta pra você. Nessa casa

nossa casa

tudo continua na mesma. Sem reformas, sem móveis fora do lugar, pintura nova, ou qualquer outra alteração. Até mesmo nossa cama, permanece intacta. Desarrumada, assim como você a deixou naquela manhã. Assim como você deixou minha vida naquela manhã.

Naquela manhã de janeiro, de céu límpido. Quem poderia imaginar, que naquele dia de verão tudo acabaria?

Não ousei arrumá-la. Sequer tenho dormido nela. Todo esse tempo, minha cama tem sido o sofá da nossa sala de estar.

Já nem sei por que ainda escrevo, se você pode ver tudo isso quando vem aqui. Acha que não noto, não é mesmo? Mas, sim, eu percebo sempre que você aparece. A primeira vez, há alguns meses, foi quando saí e esqueci a porta aberta. Ninguém perceberia, tudo estava tão intacto quanto antes. Mas eu senti. Foi até nosso quarto, eu sei. Pegou um dos envelopes na escrivaninha, mas – mesmo não estando lacrado – você não o abriu. Jamais abriu nenhum deles. A partir daí, passei a deixar a porta sempre aberta quando eu saía, para que você pudesse voltar.

Os envelopes estão todos selados, no entanto, nunca pensei em enviá-los. Não sei mais seu endereço. Você se mudou daqui, mas não sei para onde, tampouco sei se tem novos amigos... se já me substituiu

lembra como ríamos dessa palavra? “Ninguém vai ser substituído”, você dizia… como no filme da Pixar, Toy Story.  Mas, como no filme, alguém sempre acaba sendo substituído…

por alguém. Claro que já. No fim, sempre se trata disso. Outra pessoa. Contudo, mesmo que eu mandasse qualquer dessas cartas, sei que você não leria nenhuma delas. Queimaria na lareira, como vimos em tantos filmes.

Há uma lareira onde você está agora? A lareira da nossa casa foi ideia sua, lembra? Claro que você se lembra…

Ou, então, você queimaria a carta no fogão, colocaria no triturador de papéis, ou qualquer outro modo para se desfazer. Jamais teria coragem de abrir, eu sei.

Por isso – dessa vez – resolvi pregar a carta na nossa geladeira, como num bilhete de “volto logo”. Vou deixar a porta aberta, pela última vez. As chaves estão no porta-chaves

mas claro que você sabe disso, não é? Foi você que comprou esse porta-chaves…

ao lado da porta. Pegue-as, e, ao sair, feche a porta. Já tirei minhas coisas daqui. As cartas estão no mesmo lugar. Leia ou queime, pois já não me importo mais.

Fui ser feliz, e não volto mais.

Lembrar de mim.

Quando nos encontrarmos de novo, mesmo que você não me diga, eu vou saber. Vou perguntar “foi ele, não foi?” e provavelmente você vai limitar-se a balançar a cabeça, em sinal de afirmação, olhos fixos no chão. Talvez eu não te conheça mais, ou já não me importe, mas, quando você estiver triste por causa dele, eu vou estar do seu lado, e te fazer rir. Vou tentar fazê-la esquecer-se dele, mesmo que só por um momento. E eu vou conseguir.

Vamos voltar para nossas vidas, separados novamente, e você vai se lembrar de mim. Vai pensar que foi apenas acaso, termos nos encontrado nessa situação, mas você – de todas as pessoas – sabe que a Lei Natural dos Encontros nunca me favoreceu. Até esse dia. Uma coincidência, você vai pensar, apenas uma coincidência. No entanto, já cansou de ouvir de mim que a coincidência é só mais uma divindade. E deuses e deusas são apenas respostas evasivas para as perguntas que os seres humanos ainda não encontraram a solução.

E então, quando vocês brigarem – de novo –, e você pensar que não há mais solução entre os dois, você vai se lembrar de mim. Vai lembrar que, como no dia em que nos encontramos de novo, eu costumava te fazer sorrir quando você mais precisava. Vai lembrar que, em outra época, foi você que fez com que eu me afastasse, foi você que fez com que eu fosse embora.  Talvez eu não seja o maior “e se” da sua vida, não fiquei em sua vida tempo suficiente para isso. Todavia, você sabe – ambos sabemos – que eu poderia ter sido, se você tivesse deixado.

Você vai querer aquele garoto de volta. Mas ele morreu há quase dois anos, e foi você quem o matou. E vai sentir falta daquele tempo, sei que vai. Mas o mundo seguiu adiante, e o tempo e espaço já não são como costumavam ser.

E outros dois anos talvez passem… e você ainda vai se lembrar de mim. E, por mais que eles se esforcem, nunca vão ser como eu. Nunca vão ser como eu fui pra você.

E se,

Tudo mudou há dois meses. Neste ponto da minha vida, eu tinha tudo o que um garoto poderia querer: amigos, uma banda, um emprego e, é claro, uma namorada. Em um ano, eu havia me transformado naquilo que eu sempre dizia nunca querer ser: um adolescente normal. Mas, mesmo quando achamos que tudo vai bem, o Destino resolve dispor de alguns de seus truques para entreter Seja-Lá-Quem-Esteja-Assistindo.

Mas você sempre gostou dessa vida,” eu podia me ouvir dizendo. “Nós tínhamos planos, nós éramos felizes… Nós somos felizes!” Eu gritei para ela. “Sim, nós somos felizes,” ela se limitou a dizer, “mas, e se tudo pudesse ser diferente?

Desde esse dia, minha vida voltou ao limbo que costumava ser. Já não saía mais de casa, evitava meus amigos no intervalo do colégio e não retornava suas ligações. No entanto, agora eu via uma segunda opção, uma porta de escape. Pela primeira vez, eu via sentido naquela frase. E se tudo pudesse ser diferente?  Se eu tivesse a oportunidade de deixar tudo para trás, e começar uma vida nova, eu aceitaria? Você aceitaria?

Ideias, Sinos, e Outras Divagações.

Ideias voam, soltas como folhas no outono. Levadas pelo ar no menor sinal de brisa. Pensamentos soam como um sino, me despertando do sono como um incômodo inquilino. Entretanto, entre tantas idéias, decido por abrir a porta. Escolho, dentre todas, uma folha amarelada ao sol; pego-a, e torno a entrar.

Me sento. Com a mesa à minha frente, a folha de outono à minha esquerda e uma folha em branco à minha direita, destampo minha caneta e risco os contornos de minha ideia no papel. Aos meus olhos, o que antes era uma ideia em forma de uma folha, agora se parece com um diamante bruto, disforme. Me perco em um labirinto de riscos e rabiscos, lapidando-a entre regras e contrarregras, grafias e ortografias; entre linhas e entrelinhas, pontos e contrapontos.

Ao fim de meu trabalho, acabo por descobrir que, muitas vezes, a beleza bruta é superior à trabalhada. Ou, pelo menos, assim são as ideias.

Tempo.

Tanto tempo. Faz tempo que já não nos falamos. Tanto tempo faz que não somos mais os mesmos. Tanto tempo, que você nem me pergunta mais se estou bem, e já nem sei se realmente estive bem alguma vez, desde que você deixou de perguntar.

Parece-me um sonho, distante, perdido nas profundezas do inconsciente. Algo que somente às vezes retorna à mente.  Um tempo diferente. Mas esse tempo é pretérito, imperfeito, assim como você. E também já não sei se você era mesmo real, ou apenas outro delírio de minha mente febril, criado para me consolar de um tempo que jamais existiu. Mas faz tanto tempo… que já nem sei.