A visita de Jesus a seu servo Reuel, amigo de Seu Pai

O Teatro de Oklahoma

Certa noite, decide Jesus visitar em sonho Reuel, seu fiel servo e amigo de Seu Pai. No sonho, passava da hora de cear, Jesus e seu servo conversavam enquanto bebiam vinho, quando Reuel esvazia seu sexto cálice. E eis que, ao encher o cálice de seu servo pela sétima vez com um jarro de cerâmica que estava sempre meio cheio, nunca meio vazio, disse-lhe Jesus: “Em verdade, em verdade te digo que sou tão intolerante quanto Meu Pai. Se preguei nessa Terra o amor ao próximo, foi por saber que fariam justamente o contrário do que eu dissesse. Dois dias se passaram desde que ascendi aos Céus, e olha o que fazem os servos meus. Em m’Eu nome entram em guerras das quais não querem sair, só pelo prazer de matar e dominar. Em m’Eu nome, lincham ladrões, enquanto minhas palavras foram “atire a primeira pedra aquele que limpo de…

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meialuz

O Teatro de Oklahoma

não vira de costas não, meu amor, eu quero ficar olhando você. não vira de costas não, eu quero dar beijos na maçã do seu rosto de vinte em vinte segundos enquanto faço carinho no seu cabelo. não vira de costas não, eu quero dizer que amo você só pra ver você sorrindo em resposta pra depois dizer que me ama também e eu sorrir desse jeito torto de quem tenta segurar mas não consegue, eu quero abraçar você e me desligar de tudo além do seu cheiro, e que você me aperte, aperte tanto que chegue a doer uma dor dessas dores boas, doces, que eu sempre sonhei em ser capaz de fazer alguém sentir. eu quero foder você, meu deus como eu quero foder você, gosto tanto de você com essa calcinha de renda, e olha que eu nunca achei que calcinhas de renda fossem nada demais mas…

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Onde o Oceano encontra o Céu

Não me olhes assim.

Nós nos encontraremos de novo, onde o Oceano encontra o Céu, onde estrelas de diamante líquido permeiam a nossa volta, onde pequenas ondas lambem nossos pés como labaredas salgadas.

Não me olhes assim com esses teus olhos verdes suplicantes como se essa fosse a primeira e última vez.

Nós nos encontraremos de novo, onde tua tez cintila tão prateada quanto Selene, Crescente no firmamento, onde a bruma oculta esse teu sorriso lacônico e te torna ainda mais indecifrável.

Não me olhes assim, senão acabo cedendo e ficando um pouco mais, mas, quando eu for, não te esqueças: nós nos encontraremos de novo.

Onde o Oceano encontra o Céu.

A Noite mais longa

Era a Noite mais longa do ano quando você chegou. Era sempre a Noite mais longa do ano quando você chegava, trazendo o Solstício junto de si. Nessa Noite em especial, a Lua fazia-se quase Cheia e eu ainda dormia quando você silenciosamente abriu a porta, limpou no tapete as botas de viagem, pendurou num gancho à parede o casaco e caminhou de passos macios até a sala.

Empurrou-me pelas costas assim, feito criança, com as duas mãos espalmadas, a fim de fazer-me ceder espaço no nosso sofá, o que acabou por me fazer acordar. Boa Noite, eu disse sonolento, uma mão coçando o olho esquerdo, a outra escondendo a boca que terminava um bocejo. Alguém deveria estar acordado, você diz, fingindo-se de séria. Esperando por mim.

Sempre durmo a essa hora, admito, vencido, quem sabe desse modo a Noite chega mais depressa. Momentos como esse exigem sinceridade. Então você sorri esse sorriso que eu não via havia um ano, e deita-se ao meu lado espalhando ao meu redor seu perfume de mirtilo, sua mão esquerda segurando a minha. Sua pele é fria ao meu tato por causa da longa viagem que fez, ainda assim é um frio que chega a queimar minha pele.

Com seu pescoço recostado ao meu ombro, consigo sentir seu sangue pulsando lentamente, assim como sua respiração fazendo cócegas em mim. Ficamos assim, deitados em silêncio, durante todas as primeiras horas da Noite, apenas acostumando nossos corpos à presença um do outro. Presença que ansiamos por todos os outros trezentos e sessenta e quatro dias do ano, mas que só nos é dada numa única Noite, o Solstício de Inverno.

Mais tarde, depois de nos amarmos infinitas vezes e de eu fazê-la morrer de rir ao dizer eu amo você, assim, todo sério, conversaremos sobre todas as coisas que precisamos falar um com o outro durante nossas últimas horas juntos. Mas quando a primeira luz da Aurora estiver prestes a chegar, fingirei ter caído no sono outra vez, e pedirei desculpas silenciosas por não ter coragem de vê-la partir de novo, mesmo depois de todos esses anos.

E com a sua partida, fica comigo a certeza de que a Noite mais longa foi também a mais feliz do ano, porque você esteve aqui, comigo. Outra vez.

Dessas dores boas, doces

Me segura pelos ombros ou pelas mãos e aperta, aperta tanto que chega a doer uma dor dessas dores boas, doces e diz eu amo você. Diz assim, inflexível, robótico, a voz suave e baixa, os nossos olhos se tocando. Eu amo você, todo sério, tão sério que eu me desgraço a rir, gargalhando alto, sonoramente que nem uma boba alegre. O que foi?, você pergunta, a preocupação impressa em cada uma dessas linhas no seu rosto que eu conheço como nenhuma outra pessoa na face arredondada de pólos achatados dessa Terra. Não é nada não, eu tento dizer, sem ar. Não é nada não, é só que você é sempre tão cheio de risos e brilhos nos olhos e eu aquela que diz para-com-isso-seu-sujeitinho-miserável-que-o-assunto-é-serio enquanto pontuo cada palavra com um tapa em seu braço que não posso deixar de rir, desembestada assim, quando o sério da vez é você. Então você sorri esse seu sorriso torto, à meia-luz, fitando as mãos envergonhado da seriedade de outrora e eu me desmancho em você, me desmancho e – para eu não escorrer – me agarro em seus braços esguios e você me aperta, aperta tanto que chega a doer outra vez uma dor dessas dores boas, doces, que só você foi capaz de me fazer sentir.